Jaqueline M. Souza

Procedimentais X Serializadas

As diferenças entre os dois formatos dramáticos em séries

 

Quando pensamos na roteirização de um filme, pensamos em uma narrativa que se fecha dentro de si mesma; um personagem tem um objetivo, acompanhamos sua jornada e ao atingir esse objetivo, ou não, a história se encerra. Esse arco narrativo leva o personagem de um ponto a outro e o público acompanha a sua transformação ao longo da jornada.

 

Em séries trabalhamos com o conceito de “narrativa longa” ou “Narrativa expandida”, os personagens passam por vários micro-arcos narrativos em paralelo a um grande arco e ao atingir um objetivo, um novo surge fazendo com a história prossiga. Os personagens passam por pequenas transformações que dão mais dimensão em suas personalidades e vão revelando cada vez mais sobre seu caráter.

 

A terminologia de série “dramática”, não se refere necessariamente ao gênero drama, mas sim a narrativa e tom aos temas trabalhados na série. Séries do gênero policial (24 horas, Sherlock, etc), do meio legal e juridíco (Law and Order, The Good Wife, etc.), suspense (The Following, Hannibal), tramas politícas ( Boss e House of Cards) ou até mesmo séries com leves tons de humor (Monk, AllyMcbeal, Esquadrão classe A, etc.) se adequam na categoria de séries dramáticas.

 

As séries dramáticas de uma hora são dividas em dois formatos, o Procedimental e o Serializado. Esses formatos estão no alicerce da criação da série e toda a estrutura e escrita se baseia em qual dos formatos a sua obra será desenvolvida.

 

 

PROCEDIMENTAL

House M.D., CSI, Law and Order, O Hipnotizador, Dexter, etc.

 

 

“O que é que séries como Breaking Bad, Homeland e Mad Men têm em comum? Elas são todas ganhadoras de Globos de Ouro. E o que é que NCIS, Castle e Blue Bloods têm em comum? Elas estão entre as cinco primeiras produções mais lucrativas nos EUA” -Barry Schkolnick (criador de Law & Order)

 

 

 

Em obras serializadas, o arco da temporada ou da série toda é o carro chefe. Alguns episódios contam histórias com começo, meio e fim, porém a trama principal permeia todos os episódios da temporada, fazendo com que ganchos ao final de cada episódio prenda a atenção do espectador e o fidelize . Os personagens e os argumentos principais vão progredindo a cada episódio em um grande arco narrativo.

 

O foco principal de Mad Men não é mostrar os problemas criativos de uma agência de publicidade e como eles resolvem a criação de uma campanha a cada episódio, mas sim sobre personagens deslocados que vivem em um mundo de ilusões em uma sociedade que se transforma rapidamente. A série conta com múltiplos personagens e storylines que tentam vender “O sonho americano” criado por eles mesmos, mas que continuam vazios e titubeantes. Essa é apenas uma das temáticas da série, que são trabalhadas em vários arcos narrativos que impactam e alteram o destino dos personagens. Breaking Bad não é sobre como Walter White deve lidar com a falta de ingredientes para produzir metanfetamina, apesar de esse poder ser uma das situações de um episódio, mas sim sobre uma tragédia anunciada de um homem comum que decide se tornar um criminoso.

 

As histórias derivam de eventos de episódio anteriores e novos conflitos aparecem no caminho dos personagens. A cada pequeno arco, os personagens passam por transformações atravessando o “ponto sem retorno” e devem lidar com esses novos momentos em suas vidas. Os arcos das séries serializadas podem mudar de temporada a temporada ou ser um grande arco da série como um todo. Comumente, pode haver um arco principal que liga toda a série (ou toda a temporada) e arcos menores que definem um conflito momentâneo para guiar o andamento de um conjunto de episódios.

 

É verdade que se as séries serializadas permitem um aprofundamento maior no desenvolvimento dos personagens e dos conflitos, mas o formato também é mais arriscado, já que exige um público fidelizado.

 

HÍBRIDAS

 

How to get away with murder, Hannibal, The Shield, Jessica Jones

 

 

 

O termo procedimental se aplica, em geral, a séries dramáticas, cujos episódios são caracterizados por serem auto-conclusivos e independente, isto é, em cada episódio, uma circunstância é introduzida e deve ser resolvida pelos personagens até o final do episódio, o que também é chamado de “Caso da Semana”.O formato sempre esteve presente na tv americana, principalmente, porque permite que novos espectadores sejam fisgados mesmo sem acompanhar a trama geral.

 

Arcos de temporada, com um subtrama que liga todos os episódios, são possíveis, mas em geral, tem pouco destaque dentro do episódio. Por exemplo, House precisa descobrir o que originou a doença de seu paciente para realizar o tratamento adequado; CSI utiliza da ciência forense para encontrar o assassino; Procedimentais podem trabalhar com histórias A, B e C que se fecham dentro do episódio, mas também deixar alguns conflitos soltos para o decorrer da temporada. As alucinações de House progridem no decorrer da série; O drama de Warrick Brown e seu vicío em jogo é explorado em vários episódios de CSI; Peter Florrick tenta provar sua inocência em The Good Wife. Mas, acima de tudo, a história (ou histórias) principal de cada episódio tem começo, meio e fim dentro do seu formato. A doença é tratada, o assassino é pego, um caso é julgado, etc.

 

A prinicipal vantagem do formato são os  espectadores ocasionais, assim um espectador pode chegar ao meio de uma temporada e assistir um episódio isolodo sem dificuldades de acompanhar a história.

 

As séries procedimentais podem se dividir em categorias baseadas na temática da série: procedimentais legais (Law & Order), as procedimentais médicas (Grey’s Anatomy, House Md, ER), procedimentais policiais ( NCIS, The Mentalist, Cold Case), os procedimentais de fantasia/mistério ( Arquivo X e Fringe), entre outras. 

 

O Procedimental tem seu desenvolvimento muito pautado pela  franquia ( não confunda com a franquia da marca como CSI e suas variantes CSI: Miami, CSI: Nova Yorque e  CSI: Cyber). Aqui a franquia é uma estrutura padrão utilizada em todos os episódios. Pegue House, por exemplo, e observe que a estrutura dos episódios é basicamente idêntica. Uma pessoa passa mal de uma doença misteriosa. A pessoa é internada e House e sua equipe a atendem. Eles fazem levantamentos de possiveis causas, mas não chegam a uma decisão. A pessoa piora e eles são obrigados a tomar uma medida. O paciente tem uma resposta ( quase sempre negativa) a medicação, mas que indica o caminho para o tratamento correto. Eles descobrem a doença e o paciente é tratado. Com leves alterações de uma episódio para outro, essa é a franquia de House Md. Não à toa, o termo procedural em inglês, já que o formato trabalha baseado nos procedimentos necessários a resolução de uma situação. Por isso, até algumas séries não-dramaticas como Monk e My name is Earl podem ser consideradas procedimentais. 

 

 

 

SERIALIZADA

Breaking Bad, Game of Thrones, Homeland, Damages, House of Cards

 

A nova Era de Ouro da Tv Americana está diretamente ligada a ascensão das séries serializadas, mas o sucesso de títulos procedimentais prova que ainda há espaço para ambas no gosto do público. 

Hoje, as emissoras parecem mais receptivas a um formato misto, onde tanto as procedimentais quanto as serializadas podem utilizar elementos alheios ou trabalhar os dois formatos simultaneamente.

 

Por exemplo, a primeira temporada do drama policial “The Shield” se utiliza das duas modalidades em núcleos diferentes de personagens. O núcleo de Vic e seu grupo de policiais corruptos segue a linha serializada, tem um arco central e único em cada temporada. O outro núcleo, o dos investigadores Dutch e Claudette, em cada episódio, tenta arrancar confissões de suspeitos dentro da legalidade, mas utilizando seus próprios métodos. 

 

Buffy, a Caça Vampiros e Sherlock, utilizam um formato misto conhecido como The Big Bad (O Grande Mal), onde em cada episódio um inimigo é apresentado, mas pequenos elementos vão sendo deixados em cada episódio de forma a ligá-lo a um inimigo maior que só é confrontado ao final da temporada.

 

Já Hannibal começa como uma série tradicional procedimental, onde a cada episódio, o Agente Especial do FBI Will Graham investiga casos com ajuda de sua equipe e enquanto é auxiliado psicologicamente pelo psiquiatra Hannibal Lecter. A trama segue como procedimental até os últimos episódios da primeira temporada, quando Will descobre a verdade a respeito de Hannibal e uma reviravolta na trama leva a uma segunda temporada serializada.

 

How to Get Away with Murder tem uma primeira temporada que se alterna entre o procedimental e o serializado. Os primeiros episódios são procedimentais com Annalise Keating e seus alunos defendendo diversos casos, enquanto somos apresentados a flash fowards dos alunos tentando esconder um corpo. Aos poucos a trama avança até o tempo do flashfoward, e então, o assasinato e seus desdobramentos viram a trama principal, "transformando" a série em serializada. Após, um episódio procedimental ainda é utilizado depois dessa guinada da série para suspender o mistério e diminuir o ritmo pouco antes do clímax da temporada.

 

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