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  • Lucas Zacarias

Ironia Dramática: A importância do controle da informação


Na introdução de seu livro The Sequence Approach, Paul Joseph Gulino apresenta quatro ferramentas que roteiristas podem usar para capturar a atenção do público através da expectativa. Dentre elas, o autor destaca a Ironia Dramática.

“Ironia Dramática ocorre quando o público sabe mais do que um ou vários dos personagens na tela, uma condição que empurra a atenção do espectador para o futuro porque cria um sentimento de antecipação sobre o que vai acontecer quando a verdade vier à tona.” - Paul Joseph Gulino em The Sequence Approach

Ou seja: o roteirista concede ao espectador o privilégio de uma informação e o convida a observar de camarote como o(s) personagem(ns) agem no estado de ignorância que se encontram.

A técnica da Ironia Dramática é bastante recorrente em séries, filmes e esquetes que assistimos no dia-a-dia. Breaking Bad, por exemplo, sustenta o conflito sobre a busca pela real identidade de Heisenberg. Nós, espectadores, sabemos que trata-se de Walter White, mas o desconhecimento dos demais personagens sobre esta informação é o que garante o suspense e a comédia das situações adversas que o protagonista vive.

Walter White no seu melhor momento “fingi demência” em "Breaking Bad"

A Ironia Dramática é uma técnica simples e potente da dramaturgia que geralmente é ignorada pelo escritor aspirante. Roteiristas tendem a acreditar que os personagens no roteiro precisam ter acesso às mesmas informações na história e ao mesmo tempo que o espectador. É importante saber que esta é uma escolha e que há alternativas no processo de entrega ou retenção de uma informação narrativa. Afinal, criadores precisam ter consciência de que têm personagens e espectadores à mão como marionetes. Informação é poder.

Vamos considerar que uma narrativa é composta por três instâncias do universo diegético: a primeira é a do narrador, ou seja, aquele que cria e manipula a história. Ele detém todas as informações a respeito do mundo no qual a trama se passa e é ele quem escolhe o que vai entrar ou não no recorte temporal que se constitui o filme. Portanto, por deter a sabedoria completa deste universo e por agir livremente sobre ele, podemos dizer que o narrador é Deus; a segunda instância é a do personagem, que é habitante deste mundo. Ele sempre viveu ali e tem uma história individual em andamento desde muito tempo antes do filme começar. Ele não conhece todos os detalhes do universo como o narrador, mas sabe de todas as suas experiências pessoais; a terceira instância é ocupada pelo espectador, que não habita e nem conhece o mundo, mas é testemunha, é voyeur da história que se apresenta como filme. Por isso, o espectador demanda o mínimo de informação para ser capaz de acompanhar a narrativa. E quem provê essa informação é o narrador.

Para além dos dogmas de manuais de roteiro, existe uma regra fundamental na qual roteiristas se baseiam, principalmente se a narrativa está vinculada à lógica comercial da indústria cinematográfica: não entedie o público. De acordo com este princípio, a dramaturgia do filme utiliza todos os recursos disponíveis para manter o público atento à história do início ao fim. Nesta finalidade, o controle da informação é uma importante estratégia de engajamento.

Vamos imaginar um gráfico cartesiano que mostra como funciona o processo de repasse e retenção da informação pelo narrador. Consideremos que o eixo y seja o nível de conhecimento e o eixo x seja o tempo de filme. O narrador (ou seja, o roteirista) está no topo do nível de informação a respeito da trama, e dali não sairá. O personagem, em comparação, está em um nível intermediário da informação, uma vez que este personagem habita o universo ficcional e sabe o que aconteceu com ele antes da história começar. Já você, o espectador, detém uma quantidade baixa ou irrisória de conhecimento do universo narrativo. Vamos admitir que você no máximo leu uma sinopse, ou assistiu a um trailer, ou ouviu opiniões. Ou talvez nem isso. Assim a história começa.

Supondo que o personagem referencial seja o protagonista, é comum que o narrador promova uma aproximação entre ele e o espectador no sentido da transmissão da informação, como se o protagonista estivesse desde o começo do filme acima do público neste quesito. No entanto, há histórias que funcionam no contrário. Quando a primeira sequência da narrativa exibe os vilões em ação, o espectador assume uma posição mais privilegiada do que o protagonista, que só virá a alcançar o mesmo conhecimento do público no decorrer da sequência de ação. Exemplos de narrativas com estas estratégias podem ser vistos em O Cavaleiro das Trevas e Jurassic Park. É nessa dinâmica que iremos focar mais adiante.

De qualquer forma, em um curto espaço de tempo espera-se que o narrador provenha ao espectador uma quantidade suficiente de informações que permita a ele assistir ao filme sem ficar completamente perdido. Essas informações são passadas através da exposição, que já foi explicada aqui. O controle da informação é um poder crucial para o roteirista. É fundamental entender quando entregar e quando reter um dado ao público.

Imagine que, na intenção de tornar o público mais curioso, um roteirista retenha informações demais e deixe o espectador por muito tempo alheio às regras do universo. O efeito imediato no espectador é a desatenção, a digressão, o desinteresse e - tragédia! - o abandono. Afinal, o roteirista dificulta a compreensão da trama. No extremo oposto, se o roteirista entrega informações demais para o público, a trama pode acabar se tornando previsível, cliché, monótona. Além disso, se o espectador acaba em uma posição muito acima do personagem no nível do conhecimento, a tendência é que público e protagonista se desconectem porque o personagem acaba idiotizado e dá a sensação de incapacidade. O efeito final tende a ser o mesmo: desatenção, desinteresse e abandono.

A técnica da Ironia Dramática, ao contrário, previne a evasão do espectador porque incentiva a sensação de antecipação. Por isso, como diz Paul Gulino, esta estratégia agarra o público pela expectativa que desperta. Assim que acessa uma informação e testemunha as ações dos personagens que estão alheios a ela, o espectador se pergunta: “O que vai acontecer quando o personagem descobrir o que eu já sei?”

Lembremos da fala emblemática de Hitchcock:

"Se por acaso houvesse uma bomba debaixo desta mesa e nossa conversa é muito banal, nada especial acontece e de repente: bum!, explosão. O público fica surpreso, mas antes disso é mostrado a ele uma cena completamente banal, desprovida de interesse. Examinemos agora o suspense. A bomba está debaixo da mesa e o público sabe disso, provavelmente porque viu que o sujeito a colocava. O público sabe que a bomba explodirá à uma hora, e sabe que agora são quinze para uma (há um relógio no cenário). A mesma conversa banal se torna de repente muito interessante porque o público participa da cena. Tem vontade de dizer aos personagens na tela: “Não deveriam contar coisas tão corriqueiras; há uma bomba debaixo da mesa e em breve vai explodir.” No primeiro caso, se oferece ao público quinze segundos de surpresa no momento da explosão. No segundo caso, oferecemos quinze minutos de suspense." - Alfred Hitchcock em Hitchcock/Truffaut: Entrevistas

Observe como esta cena do filme Operação Valquíria (2008) utiliza o mesmo exemplo para criar uma sequência de tensão. O espectador, assim como o personagem de Tom Cruise, Coronel Stauffenberg, está ciente de que dentro da maleta há uma bomba. Os nazistas, no entanto, desconhecem a informação. O suspense é construído baseado no pouco tempo que Coronel Stauffenberg tem para a fuga e na desconfiança dos soldados com relação à sua conduta.

A Ironia Dramática é dividida em três partes: a instalação, que é quando uma informação da qual um ou mais personagens não têm acesso é dada para o espectador; a exploração, que é quando o espectador testemunha as ações dos personagens envolvidos na cena e os efeitos dramáticos da informação ainda não revelada; e a resolução, quando os personagens alheios finalmente têm acesso à informação e permitem o desenlace deste conflito na narrativa.

Por outro lado, diferente de Operação Valquíria, a Ironia Dramática também pode ser usada para fins cômicos. Em Quem vai ficar com Mary, a sequência do gel de cabelo instala e explora a técnica em dois momentos diferentes. Ao se deparar com Mary na porta de seu apartamento, Ted não se dá conta de que o “gel” que procura está pendurado em sua orelha. A resolução desta Ironia Dramática inaugura uma nova: Mary pensa que trata-se de uma substância capilar e a faz um topete em si mesma. A exploração da cena se dá pela comicidade e pelo desconforto de Ted diante da situação embaraçosa.

O autor brasileiro Flávio de Campos define:

“numa Ironia Dramática, um ou mais personagens percebem apenas o significado aparente de um incidente e o espectador percebe tanto o significado aparente quanto o real.” - Flávio de Campos em Roteiro de Cinema e Televisão

No entanto, não se espera que em toda situação de Ironia Dramática haja uma resolução, ou seja, que o personagem sempre acesse o significado real do evento. Se o personagem que desconhece uma informação é aquele por quem o espectador cria empatia, o público torce para que ele descubra logo o que não sabe. Afinal, é doloroso ver que alguém por quem temos afeição esteja sendo enganado. Em uma sequência de Se Meu Apartamento Falasse, Bud Baxter descobre que sua amada Fran está tendo um caso com seu chefe Sheldrake através de um espelho quebrado. Esta informação já é sabida pelo público muito tempo antes na história. O espelho, que não era nada além de um objeto inocente em poder de Bud, é ressignificado assim que ele acessa a informação que já temos.

Por outro lado, se o personagem em ignorância é alguém que se opõe ao protagonista ou por quem o espectador não sente empatia, a torcida é para que este indivíduo jamais tenha acesso a informação, principalmente se este conhecimento afeta o protagonista negativamente. É o caso de Tootsie e de Quanto Mais Quente Melhor. Quanto mais próximo alguém fica de descobrir que os protagonistas dos filmes são de verdade, maior é nosso nível de tensão e torcida para que as identidades se mantenham secretas. É claro que essa torcida não ocorre exclusivamente por causa da Ironia Dramática, mas pelo risco iminente que correrá o protagonista ao ser descoberto. Se temos empatia pelo personagem que pode sofrer uma perda caso certa informação que ele esconde vier à tona, a aproximação emocional do público ativa o efeito de torcida. Nesse caso, Empatia e Ironia Dramática são técnicas diferentes utilizadas ao mesmo tempo.

No entanto, a aplicação da Ironia Dramática não precisa necessariamente durar por toda a narrativa. Uma sequência em que um marido ou uma esposa se aproximam de descobrir que estão sendo traídos por seu cônjuge pode não durar mais que cinco minutos. A trama de dois amantes que desconhecem o laço familiar que os une também pode ter uma duração menor do que a de um filme ou série inteiros. Tudo depende da escolha do roteirista.

As "Duas Irenes" e ironia dramática que permeia o conflito principal da trama.

Infiltrado na Klan tem a Ironia Dramática como base do conflito principal. O grupo de policiais age para manter a salvo o segredo de que Ron, na verdade, é um homem negro em contato com o grupo supremacista. No brasileiro Duas Irenes, uma das meninas homônimas desconhece que a nova amiga é filha de seu pai. Muito menos o pai sabe que as duas filhas chamadas Irene já se conheceram. O segredo é mantido ao longo da narrativa e a resolução, nesse caso, vem em forma de um final catártico.

Exemplos de Ironia Dramática aplicadas à trechos de filmes também são facilmente encontrados. Em Bird Box, a sequência em que as mulheres estão simultaneamente em trabalho de parto se intercala com a revelação de que Gary é na verdade um dos loucos fascinados pelas visões. A montagem paralela contribui para despertar o sentimento de antecipação no espectador, que aguarda até que Gary alcance as mulheres e que elas descubram suas reais intenções. O suspense intensifica o conflito da sequência, e torcemos para que Olympia e Malorie, em posição de total vulnerabilidade, consigam se salvar da ameaça que o homem representa.

O risco eminente de desconhecer os perigos de Gary ataca Olympia em "Bird Box".

Para Paul Gulino, a Ironia Dramática é uma ferramenta que estimula o espectador a querer saber o que vai acontecer depois - portanto, uma maneira eficaz de manter o interesse do público na narrativa. Em escala hierárquica, o autor compara esta técnica com outras três formas de captura da atenção: o foreshadowing, o cliffhanger ou causa pendente e a tensão dramática. Segundo Gulino, a Ironia Dramática está abaixo apenas da última ferramenta, em termos de eficácia. No entanto, a técnica abarca sua própria tensão dramática porque estabelece um conflito autônomo em sua unidade de ação. Do ponto de vista do entretenimento, portanto, dá para dizer que a Ironia Dramática é um excelente custo-benefício: certeira no efeito e simples na execução.

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