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  • Jaqueline M. Souza

Como receber e dar críticas a um roteiro


Nós já comentamos sobre a importância e o valor de opiniões externas no roteiro (disponibilizamos até uma ficha no site para ajudar o processo). O olhar de fora pode revelar pontos obscuros na escrita que na mente do escritor pareciam resolvidos, assim como iluminar sobre a receptividade quanto a temas e abordagens.

A literatura já faz bom uso há tempos dos chamados leitores beta, é um processo muito válido e enriquecedor, principalmente quando feito corretamente. É uma ótima opção para quem não tem dinheiro para passar por uma consultoria, como também é interessante como processo, ajudando a fechar os detalhes entre tratamentos.

Mas não é só entregar para um amigo, esperando louros, tampouco para quem está do outro lado, ler desatentamente na procura de erros. Então se você procura um feedback do seu roteiro, listamos alguns elementos importantes para ter em mente ao fazer e receber críticas.

1. Esteja aberto

A primeira e mais importante coisa a se ter em mente na hora de passar seu trabalho para alguém é estar realmente aberto. Se você não está completamente aberto a críticas, economize o seu tempo e o da outra pessoa. Ela precisará ler, dedicar sua atenção e conhecimentos, então se você realmente não está disposto a escutar o que ela tem a dizer, vale a pena avaliar se é o momento certo de passar o roteiro pelo processo. Um profissional deve estar disposto e receptivo ao retorno e compreender a percepção do outro, procurando o que dê melhor pode extrair dela.

2. Saiba o que você quer

Parece contraditório, mas ao mesmo tempo em que você tem que estar aberto para receber críticas, você deve estar focado para saber que críticas são importantes e devem ser trabalhadas e quais devem ser deixadas para trás. Isso porque você corre o risco de perder o foco completamente e simplesmente sair do caminho da sua história para satisfazer uma crítica ou outra. Ao invés de ajudar, todo o processo pode ser contraproducente, fazendo com que você fique perdido. Então, pense sinceramente, se a crítica é válida e se não for agradeça a dedicação da pessoa, mas simplesmente não a siga. Na dúvida, sempre procure a consultoria de um profissional.

3. “Eu não gosto”

Você está do outro lado? Lendo o roteiro de um conhecido como um leitor beta? É comum receber ou dar um feedback, completamente pessoal. Obviamente, a compreensão de uma obra é subjetiva, depende do repertório, das experiências e dos gostos de cada um, porém é fundamental ter em mente que a obra não está sendo criada para você. Então é importante, ir além do simples gostar ou não. Essa é a função mais importante dessa leitura distanciada, apontar o que não funciona e porquê. Levante questões ou dúvidas que ficaram, explique o porquê de seus posicionamentos e dê indicações de pontos específicos onde os problemas narrativos se apresentam. Você não está fazendo uma crítica literária, está dando um feedback do seu processo de leitura.

4. Não seja super-protetor

Essa vale para quando você recebe uma obra para dar sua opinião. Pior do que pessoas que ficam procurando defeitos que não existem só para fingir dar alguma contribuição, é a escolha de não apontar os problemas encontrados na obra. Se você tem a capacidade de perceber furos de roteiro, personagens fracos e mal construídos ou mesmo problemas de ritmo, aponte isso ao roteirista. Se ele deu a obra para que você lesse é porque acredita na sua visão crítica e espera que você possa colaborar, explicitando coisas que para ele são obvias ou estão bem resolvidas. Sua colaboração é fazer essas indicações e não dar um tapinha nas costas.

5. Não seja um fiscal da obra alheia

Por vezes, ao ser colocado na posição de dar uma opinião as pessoas se sentem obrigadas a procurar defeitos para demonstrar sua visão "aguçada". Então, elas em vez de realmente se entregarem ao processo de leitura e mergulharem na história, ficando imaginando como elas mesmas teriam escrito e a partir do momento que o roteiro não corresponde ao seu estilo ou visão, elas passam a considerar isso erros narrativos ou furos. Então, não force a barra, respeito estilos e métodos, mas acima de tudo, leia como um leitor e aponte os eventuais problemas que encontrar, não tente ser um fiscal.

6. Work in progress

Outra erro comum é no calor do momento, repassar uma obra inacabada para alguém. Se você ainda não acrescentou ao material tudo que imagina, antes de mais nada você precisa terminá-lo. O ideal é repassar o material ao final de um tratamento. Assim, antes de iniciar um próximo tratamento do roteiro, você consegue refletir sobre as questões apontadas e escolher desenvolvê-las ou não.

7. Outros profissionais

Se um profissional de escrita e roteiros trabalha fazendo consultorias ou mesmo leituras pagas, não peça a ele para fazer uma leitura beta gratuita do seu roteiro, por simples educação e ética profissional. É tão deseducado quanto fazer perguntas sobre a sua alergia durante uma festa a um médico. Se você gostaria muito dos acréscimos que determinado profissional poderia trazer ao seu trabalho, esteja consciente que ele tem todo o direito de cobrar por isso.

8. Ajuda com o público alvo

Outra opção é aproveitar a leitura beta para testar a abertura do público alvo da obra com o roteiro. Nesse caso, é ideal ter uma pequena amostragem com vários leitores dentro das características do seu público alvo fornecendo suas opiniões. A indicação de padrões comuns de recepção, como vários feedbacks apontando a escrita superficial de um personagem, ou as falas não estarem adequadas ao linguajar usado pelo nicho, talvez sejam um ótimo indicativo para refletir se esses elementos serão eficientes com o seu público alvo. Hoje existem institutos de pesquisa que realizam pesquisas qualitativas ( e que podem ser realizados inclusive em roteiros), mas a versão antiga e popular feita com um grupo de forma mais descompromissada é mais acessível e também pode render bons resultados.

9. Registre

Lembre-se que antes de passar seu roteiro por aí, ele deve estar registrado para lhe assegurar o máximo de segurança quanto a propriedade intelectual da obra. Às vezes, por medo, os roteiristas mantem seus roteiros trancados a quatro chaves, o que só os impedem de serem lidos. Então, não esconda o seu roteiro, ele foi escrito para ser lido, mas lembre-se de protegê-lo adequadamente. Se você não sabe como registrar sua obra,leia mais aqui.

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