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  • Jaqueline M. Souza

Backstory, Estrutura Óssea e Perfil psicológico: desenvolvendo personagens


Pode ser muito arriscado soltar um personagem na história sem conhecer nada sobre ele, mas por outro lado, conhecê-lo em excesso pode dar falsas impressões e tornar o personagem demasiadamente previsível ou unidimensional.

Bons personagens já começam complexos em suas histórias e podem revelar novas facetas ao longa de suas trajetórias. E aí se encontra a complexidade de criar personagens, eles devem ter uma construção lógica, que faça sentido ao público e dialogue com a trama, mas que também possa nos surpreender.

O backstory, ou história pregressa, é uma ferramenta muito popular no desenvolvimento de personagens, mas não explora toda a complexidade que os personagens podem ter.

O breve perfil de personagens no pitch da série Friends.

Boa parte das histórias se baseiam justamente no ato de colocar personagens em situações únicas, as quais eles nunca passaram antes (ou pelo menos não daquela forma), então é inútil acreditar que um backstory excessivamente detalhado vai dar respostas. Backstory é backstory. Deve ser sucinto e trazer informações sine qua non do passado do personagem. Não adianta escrever uma trilogia de história pregressa do seu personagem se isso não for relevante a história que você está contando.

"Muitos escritores cometem o erro de incluir muitas informações de backstory. Através do uso de flashbacks, voice-overs, sequências de sonhos, eles sobrecarregam o roteiro com informações sobre o passado, em vez de se concentrarem no presente. O que é dramático é o presente - o agora.". -Linda Seger em Como Criar Personagens Inesquecíveis

Não é necessário fazer uma biografia dizendo que seu personagem fez uma cirurgia do apêndice aos 13 anos de idade se isso não estiver diretamente ligado com a sua trama. Sendo trazidos ou não para dentro da narrativa do filme, os backstorys mais eficientes de alguma forma ressoam em sua história e em seu personagem no agora. É só dentro do espaço-tempo da história que o personagem habita.

O backstory de Clarice Starling em O Silêncio dos Inocentes é tão importante para entendermos sua personagem que dá nome ao filme (em inglês, O silêncio dos Cordeiros). Ele é inserido naturalmente dentro da história por conta de dinâmica de troca de informações que Hannibal estabelece com ela, fosse introduzido de outra forma correria o risco de soar forçoso. A tentativa de salvar pelo menos um dos cordeiros é a melhor representação da coragem, doação e heroísmo de Clarice, características essenciais para entendermos sua dedicação e entrega no caso que investiga.

"E então, por razões que nem tenho certeza, fiquei muito emocionado, e ainda fico, com Clarice Starling. Por sua coragem e vulnerabilidade - e provavelmente eu respondo mais à coragem em um personagem do que a qualquer outra qualidade. Ela está em um mundo masculino, e ela é estudante, e ela é órfã ... Eu estava profundamente comovido por ela. E Thomas Harris trabalhou tão habilidosamente em bases míticas - tinha essa sensação de que era uma jovem órfã fazendo o seu caminho no mundo, e há o bom padrasto em Crawford e o padrasto malvado, que é Lecter, e que a está educando. Essa é uma grande parte da história, de fato, é o coração emocional de toda a história; A busca de um pai desaparecido e a tentativa de substituir esse vazio que nunca vai desaparecer. A coisa toda de salvar o cordeiro e poder salvar Catherine Martin está toda amarrada com a incapacidade de salvar seu próprio pai quando era criança." - Ted Tally, roteirista de O Silêncio dos Inocentes em entrevista.

Conhecer um longo passado, seu backstory e árvore genealógica nem sempre é suficiente. O personagem só está plenamente pronto dentro de sua história. É necessário colocá-lo em ação, prová-lo, para que então ele realmente brilhe em uma construção complexa. A grande questão é que o drama trata de fazer perguntas que nunca foram feitas aquele personagem, colocá-los diante de escolhas que ele nunca precisou fazer. O passado se torna mais relevante quando adicionado à relação emocional que o personagem trava com ele. É desse aspecto psicológico que brotam as melhores respostas que ajudam sua história a ir para frente.

Lajos Egri sugere que todo personagem deve ter três dimensões , uma Física (que descreve tudo que é biológico e físico como gênero, peso, altura, cor do cabelo, olhos e pele, postura, aparência, hereditariedade, etc.), uma Social (que passa pelos aspectos socio-culturais como classe social, profissão, educação, relações familiares, Status marital, Religião, raça, nacionalidade, afiliações políticas, hobbies, etc) e uma última psicológica (que levanta sua vida sexual, seus padrões morais, suas ambições, suas frustrações , seu temperamento, sua postura diante da vida, suas habilidades, suas qualidades, etc). E a ficha com essas informações, chamada por Lajos de Estrutura Óssea do Personagem, é muita utilizada até hoje para criar o perfil de personagens, norteando questões centrais dos aspectos que dão vida aos personagens.

A dimensão psicológica, entretanto, permite trabalhar elementos de outras dimensões e dar profundidade a eles. É o aspecto psicológico que ajuda na criação de personagens individuais e singulares. A questão social é importante? Sim, mas também é a dinâmica do personagem com seus aspectos sociais. Por exemplo, ser de classe média é uma característica importante, mas podemos levar isso para outros níveis quando refletimos como o personagem se relaciona com ser de classe média. Ela estará satisfeita, como Frankie e sua família em The Middle, ou isso será uma frustração como Walter White em Breaking Bad?

“Frank Pierson (Um dia de Cão, Rebeldia Indomável, In Country) acrescenta: "O que você precisa saber sobre os personagens é o que os atores precisam saber para interpretar as cenas. O que é importante são as memórias sensorias. Não é importante o que aconteceu com eles, mas como eles se sentiram sobre isso. Se você deseja fazer perguntas, não faça perguntas aos personagens como: "Que escola eles frequentaram? Você já trabalhou em uma fábrica? Sua mãe era uma mulher dominadora?" ... O que você quer perguntar aos personagens é: 'Qual foi o seu momento mais embaraçoso? Você já se sentiu como um idiota? Quais são as piores coisas que já aconteceram com você? Você já vomitou em um lugar público?' Você precisa trazer essas emoções, porque é isso que um personagem carrega em uma cena e dá cor a tudo o que ele faz '. O backstory será diferente para cada personagem. A biografia por si só nem sempre lhe dará informações relevantes. Se você está escrevendo Hamlet, não é necessário saber quais os jogos de infância que Hamlet brincava, ou quem foi o amor de sua infância. Mas, se você está escrevendo Um Violinista no Telhado, essa informação pode ser essencial.” -Linda Seger em Criando Personagens Inesquecíveis

Outra questão que é completamente guiada pelo caráter psicológico dos personagens são suas motivações ou gatilhos. Ao definir muito bem seu caráter, seus valores, seus ideais, nós ajudamos a guiar as ações que o personagem tomará em determinada situação. É assim também que, como escritores, descobrimos que obstáculos precisamos criar para fazer com o que o personagem tome uma ação.

Em O Silêncio dos Inocentes, Hannibal Lecter é um homem culto, artístico, manipulador, egocêntrico, educado e canibal. Ele não se importa em matar e comer suas vítimas, mas ele se incomoda com falta de educação e rudeza. Ele pode ser violento, manipulador e frio, mas ele nunca será deseducado com alguém. Quando Clarice vai conversar com ele pela primeira vez, ele é fechado e faz jogos psicológicos com ela, mas ao perceber que Clarice não é de cair em seus jogos, ele a manda embora sem qualquer sucesso para a investigação. Ao sair, Clarice é atacada por Miggs, o vizinho de Cela de Hannibal, e Hannibal a chama de volta, reforçando a falta de educação de Miggs, dizendo que o punirá e que ele irá ajudá-la. Ele mudou de ideia e a única coisa capaz de ativar os gatilhos de Hannibal foi o abuso sexual sofrido por Clarice. A indignação de Hannibal é o que o motiva a ajudar Clarice.

“O perfil de um personagem dita os pontos de foco que ele percebe, bem como a forma como ele percebe e reage ao que percebe. Um personagem engajado percebe uma injustiça e se revolta, um personagem covarde percebe a mesma injustiça e se acovarda, um personagem desprovido do conceito de justiça sequer percebe a injustiça”- Flávio de Campos em Roteiro de Cinema e Tv

E nós podemos adicionar mais uma camada a essa construção psicológica. Nem todo personagem se vê como ele realmente é. Em roteiro, alguns personagens apresentam máscaras. Eles podem ser de uma forma, mas se apresentam de outra para a sociedade, sendo que muitas vezes, eles próprios acreditam nas máscaras que vestem. As máscaras também podem ser utilizadas para esconder ou camuflar os maiores medos e frustrações de um personagem. É aqui que nascem as melhores contradições e idiossincrasias. Seu personagem pode se considerar uma pessoa altruísta e até ser reconhecido pelos outros personagens como tal, mas quem sabe ele tome as decisões mais egoístas possíveis quando tiver que enfrentar seus dilemas.

“A verdadeira personagem é revelada nas escolhas que um ser humano faz sob pressão- quanto maior a pressão, maior a revelação e mais verdadeira a escolha para a natureza essencial da personagem” – Robert Mckee em Story

Personagem é plot, plot é personagem - F. Scott Fiztgerald

Personagem e plot caminham lado a lado. Essa revelação da complexidade de seus personagens, a queda das máscaras, só toma forma na história. O próprio enredo ajuda a forjar os personagens, é um processo simultâneo. Mesmo que aquela história pudesse acontecer com qualquer personagem, cada personagem agiria distintamente e levaria essa história para lugares diferentes. Então, nossa sugestão para criar seus personagens é simplesmente não começar por eles, mas sim pensando paralelamente os personagens e a trama.

“O que eu quero dizer é que meus alunos normalmente abordam o desenvolvimento dos personagens de trás para frente. Eles chegam na sala de aula com toneladas de informações sobre um personagem, mas nenhuma ideia do que fazer com elas. Eles gastaram muito tempo inventando fatos aleatórios, mas pouco ou nenhum tempo estabelecendo um contexto na história de onde empregar esses fatos. Esse tipo de desenvolvimento de personagem é o equivalente a filmar coisas aleatórias e para todos os lados com uma câmera de vídeo e esperar que saia algo útil. Se você tem uma grande ideia para um personagem, sua primeira missão é decidir qual história eles vão te ajudar a contar. Então trabalhe nessa história para estabelecer seu tema. Então responda a questão central: Por que eles tem um problema ou encontram um desafio em particular com esse tema? Agora nós podemos começar a inventar e empregar detalhes ao personagem através de nossa história e nossa trama, e não apenas como um backstory aleatório.” - Julian Hoxter em Write what You don't Know

Defina sua premissa, o tema de sua história e crie seus personagens já com essas informações em mente. Pense em suas 5 características mais importantes. Depois, volte para a história, defina pontos de viradas importantes do primeiro ato e volte para aprofundar os personagens. Como esses personagens reagem a esses conflitos/obstáculos? Que outras características eles possuem? Então, passe para a Estrutura Óssea sugerida por Lajos. Sabendo essas informações, você pode pensar que novas situações são necessários para fazê-los adentrar mais a história, para fazê-los chegar ao seu ponto sem retorno. Assim, você vai criando a estrutura e uma trama completamente ligada a seu personagem. Você pode então voltar para o desenvolvimento dos personagens e detalhar ainda mais seu psicológico.

A escrita de roteiro, às vezes, pede uma forma de pensar não linear, um processo que envolva simultaneamente várias etapas para explorar toda a complexidade que buscamos.

Em próximos textos, iremos falar sobre tipificação ( já faz tempo que prometemos, mas agora vai) e uma sugestão de exercício muito bom para trabalhar o aspecto psicológico do seu personagem.

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