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  • Tertúlia Narrativa

Cobertura FRAPA 2017: Escrever é reescrever


Apresentação de pitching da série Exterminadora durante o FRAPA na Cinemateca Capitólio

O FRAPA- Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre teve sua 5º edição entre os dias 04 e 07 de Julho na Cinemateca Capitólio da capital gaúcha.

O evento contou com diversas atividades como Rodadas de Negócios, Concursos, Pitchings, MasterClass, Mesas de Debates, Mostra Competitiva de Curtas, etc.

Estivemos pela primeira vez no Festival e fizemos uma breve cobertura do evento com alguns momentos destacados.

PITCHINGS DE ROTEIRO DE LONGA E DE PILOTO DE SÉRIE

Mariana Tesch apresentando o pitching de seu roteiro de longa-metragem "BUGS"

O Festival contou com duas séries de pitchings. A de longa-metragens teve banca formada por Luiz Bolognesi, Lucas Paraizo, Carolina Rapp (Globo Filmes), Daniella Menegotto (Lança Filmes) e Kaoê Catão (RT Features). A de pilotos de série teve banca com Erez Milgrom (O2 Filmes), Juliana Rojas, Maíra Bosi (Coração da Selva) e Marina Pompeu (Canal Brasil). Ambas foram mediadas brilhantemente por Victor Lopes que conseguia extrair pontos de cada projeto e propor perguntas e provocações para as bancas de forma direcionada, o que tornou todo o processo muito frutífero.

Cada selecionado tinha 7 minutos para apresentar seu projeto e depois respondia as questões levantadas pela banca. A banca de séries estava mais afiada e levantou diversas vezes problematizações muito pertinentes a cada projeto, indo no cerne de questões apresentadas, o que no mínimo deve enriquecer muito todos os projetos.

Observa-se que alguns roteiristas durante o Pitching utilizam o tempo a seu favor e exploram o seu próprio domínio de contação de história para tornar suas apresentações mais atrativas.

MESA DE DEBATE: O QUE O MERCADO ESTÁ BUSCANDO? - PLAYERS APRESENTAM SEUS PERFIS E DEBATEM SOBRE A DEMANDA DE ROTEIROS

com: Ana Cristina Paixão e Graziela Morgade (NBC Universal), Jorge Gonçalves (Vitrine Filmes), Marina Pompeu (Canal Brasil), Olívia Renault e Carolina Rapp (GloboNews / Globo Filmes), Ramiro Azevedo (Prime Box Brazil)

Mediação: Mariana Mêmis Müller

Cada um dos players apresentou os conceitos e trabalhos de suas exibições, algumas bem distintas das outras. O ponto alto do debate foi a resposta a pergunta trazida pela mediadora Mariana Mêmis Müller sobre os erros mais comuns recebidos por eles. Os erros mais citados foram:

  • Não conhecer o canal e o perfil da grade (mandar e-mails copiados e colados );

  • Não ler as instruções e solicitações das Chamadas (quando abertas pelos canais) ;

  • Não estar aberto a trocas sobre o projeto;

  • Não ter a ideia desenvolvida, levar a ideia e não um projeto;

  • Projeto desproporcional ao seu tamanho e fora da realidade do mercado cinematográfico brasileiro;

  • Não ter proposta de uma produtora associada;

MESA DE DEBATE: AMPLIANDO VOZES: O ROTEIRO COMO ESPAÇO DE DIVERSIDADE
com: Claudia Dalla Verde, Marcio Reolon, Kaya Rodrigues e Yasmin Thayná
Mediação: Eleonora Loner
A mesa que talvez mais se aproximou realmente de um debate. Marcio Reolon falou sobre sua experiência com o cinema queer e sobre as expectativas temáticas impostas sobre ele como criador. Defendeu a importância de não colocar personagens gays apenas em "histórias gays" para sair dos estereótipos.
Yasmin Thayná começou falando de seu filme Kbela e como encontrou a forma do filme observando a própria vivência de mulheres negras e um estado de auto-reconhecimento e transição. Um dos destaques do debate foi quando alguém do público perguntou, fazendo referência a uma experiência recente que tivera, em que um ótimo personagem de uma série que escrevera iria ser gay, mas a ideia foi negada por ele ser o vilão. A questão então levantava a moral de criar personagens de índole duvidosa ou de antagonismo como sendo negros e gays. Claudia Dalla Verde citou a tradição americana dos anos 50 e 60, que sempre que colocava um personagem de minoria como negativo, ao mesmo tempo, colocava um outro personagem para ser seu exato oposto. Então se você tivesse um personagem mal negro, você também deveria ter um personagem bom negro. Ela ressaltou entretanto que acha que bons personagens, não são bons, nem maus e que o roteirista não deveria incluir descrições do tipo, o que ampliaria a possibilidade dos personagens na hora do casting. A atriz Kaya Rodrigues, entretanto, ressaltou que como nosso olhar é embranquecido, qualquer ausência de indicação de raça resultaria na compreensão automática de um personagem branco, o que não iria ampliar as possibilidades de casting, e sim reduzi-lás. E sugeriu que o melhor é sim incluir uma definição de negro, indígena, gay sem que sejam histórias e personagens tipicamente escritos para esses perfis. Marcio Reolon encerrou provocando: Porque não protagonismo em vez do antagonismo?

"O roteiro não é infantil, ele é feito para crianças."

- Marô Barbieri na MESA DE DEBATE: INSPIRANDO AS CRIANÇAS: ROTEIRO PARA SÉRIE INFANTIL

MESA DE DEBATE: PRODUTORAS DE ROTEIRO: O ESPAÇO NO MERCADO PARA EMPRESAS ESPECIALIZADAS NA CRIAÇÃO, ESCRITA E VENDA DE CONTEÚDO
com Gabriel Gallindo (Storyland), Gustavo Colombo (Cinema Petisco), Leo Garcia (Coelho Voador), Marina Meira (Maquinário Narrativo), Matheus Colen (Agência Origina) e Marcelo Andrade (Ponto e Vírgula)
Mediação: Jaqueline M. Souza (Tertúlia Narrativa)
Bate-papo franco e super esclarecedor para desmistificar as produtoras de roteiros com cases reais e muito ilustrativos sobre o mercado. Cada um dos participantes apresentou sua produtora, suas metodologias, histórico e suas realidades. Fica claro que muitas das produtoras e seus surgimentos estão diretamente entrelaçadas com o histórico e experiência de seus fundadores e que a partir disso crescem e se estabelecem como um selo ou marca de qualidade. Depois cada um falou sobre o modelo de negócios nas muitas possibilidades que se mostraram possíveis para as produtoras de roteiro, desde o funcionamento mensal e de manutenção para as produtoras mais coletivas, até o trabalho através de rede e de atividades de ensino e eventos. Uma das perguntas da platéia veio de uma gerente de conteúdo de uma produtora de cinema, indagando sobre qual a principal diferença entre contratar uma produtora de roteiros e roteiristas individualmente. Gabriel Gallindo citou a facilidade de contratação dos profissionais, o know how adquirido e a rede de profissionais já estabelecida. Leo Garcia citou que nesses casos, a produtora de roteiros pode atuar quase como um líder de um núcleo criativo, não só gerenciando a equipe, mas trazendo uma unidade ao trabalho de diversos profissionais.
HARTCHART – DRÁCULA DE BRAM STOKER
James V. Hart é carisma puro. Consegue prender a plateia e passar informação, mesmo quando o faz despretensiosamente. Foi super aberto a perguntas e respondeu até sobre sua relação com diretores e atores ( disse ter aprendido muito com Coppola- que disse ser antes de tudo um roteirista - e também que deve toda a sua carreira ao atores).
Nesse encontro, analisou o roteiro DRÁCULA DE BRAM STOKER com o seu software Hartchart. Contou como o software surgiu em um laboratório do festival de Austin, na época uma análise visual feita a mão pelos participantes. Alega que hoje usa o software até para fazer a escaleta de seus novos projetos. Para ele, todo bom contador de histórias acredita em estrutura e o HartChart é uma forma de facilitar essa criação. Apresentou a própria estrutura que desenvolveu para seus trabalhos e a estrutura padrão do HartCart ( o software entretanto permite alterar os títulos e a estrutura como um todo como o escritor preferir).
O software (um jogo com seu sobrenome e coração) permite criar um gráfico com a trajetória emocional dos personagens. Segundo ele, é como se fossem os batimentos cardíacos de uma história e quanto mais flat (próximo da linha central) mais perto da morte.
PORQUE IR?
A premiação dos concursos e pitchings foi realizada junto com a festa de encerramento de forma completamente despojada e divertida. Fica claro que a intenção é muito mais uma celebração dos trabalhos e profissionais do que efetivamente uma competição com vencedores e perdedores. Na realidade, essa foi a impressão geral do FRAPA. Para quem está acostumado com festivais de cinema, o FRAPA é um festival sem exercicios de egos inflados, como se um grande grupo de amigos se reencontra-se (ou estivessem se conhecendo). Tivemos a oportunidade de conhecer pessoas maravilhosas, conversar sobre o mercado e refletir muito roteiro (a gente já faz muito isso por aqui, mas o FRAPA foi no nível imersão mesmo). Um processo de aprendizado riquissímo.
Outra coisa que nos chamou muito a atenção, foi a visão completamente plural sobre o ofício e as possibilidades de escrever para as telas e isso era visível desde os projetos selecionados, aos filmes exibidos na mostra e aos convidados presentes. Filmes com roteiros clássicos lado-a-lado com filmes de narrativa mais difusa, minimalista, projetos de viés artístico ou social ao lado de projetos mais comerciais. Tudo misturado, mostrando uma curadoria múltipla e aberta.
A gente sai até com aquela sensação de inspiração que os melhores festivais deixam na gente. E muita esperança por um evento desse porte e dessa qualidade estar sendo feito independente do incentivo público, fora do eixo e de roteiristas para roteiristas (apesar de não ser exclusivamente para esses).
Os trechos aqui destacados são meramente ilustrativos, com certeza não abarcam a experiência completa que vivenciamos. Recomendamos à todos que trabalham ou querem trabalhar com roteiros ( sejam roteiristas ou não)!!
Parabéns ao FRAPA e sua equipe pela consolidação como um dos eventos mais importantes da área no país!

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