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  • Jaqueline M. Souza

Argumento: quando a história começa a tomar forma


Uma das dúvidas que mais recebemos na Tertúlia é a respeito de argumentos. Como devem ser, pedidos de exemplos, que formatação usar, o número de páginas...

A verdade é que o argumento cinematográfico é um documento de trabalho ( e venda) do roteirista, por isso mesmo é muito mais difícil encontrar exemplos online, quase tão difícil quanto pintores disponibilizando os rascunhos de seus quadros.

Como ferramenta de trabalho do roteirista, ele é mais solto do que um roteiro, sem tantas regras. Para alguns ele é realizado após a sinopse e para outros profissionais, ele é o inicio do processo de escrita, sendo a sinopse e a logline realizadas após a sua escrita. Os dois métodos são válidos. O argumento pode ser realizado antes da sinopse e da logline pois muitas vezes é no argumento que a ideia toma forma, deixando o campo das abstrações. Uma logline pode ser escrita apenas com um personagem e uma premissa em mente, mas no argumento é necessário desenvolver o enredo, sua estrutura, escolher que informações serão entregues ou não ao público. Uma mesma logline na mão de diferentes profissionais resultaria em argumentos distintos.

O argumento é mais detalhado do que uma sinopse e também é mais dramático. A leitura do argumento já deve inspirar no leitor as emoções, os sentimentos, as reviravoltas que existiram no seu roteiro. Ele deve ter uma leitura agradável, engajadora, sem burocracias, que mostre o tom do seu roteiro e que fisgue o leitor. Por isso mesmo, pela grande capacidade de um argumento bem escrito em instigar e persuadir, que ele é utilizado como apresentação de um roteiro ou como ferramenta para venda.

Todo argumento deve ser escrito em prosa e no tempo presente. Ele é um texto corrido com sua história como se estivesse sendo contada para alguém, com os detalhes que são importantes para a compreensão geral, apresentação dos personagens, as situações que eles enfrentam, tudo com começo, meio e fim. O argumento deve conter obrigatoriamente todas as sequências, mas não necessariamente todas as cenas. Não são todos os roteiristas que trabalham com um argumento cena-a-cena, e como veremos a frente às vezes a limitação de tempo não permite um argumento tão detalhado. Mas o argumento não deve ter uma preocupação excessiva com a construção das cenas, essa será a função da escaleta, uma etapa posterior, a qual também faremos um texto em breve abordando seu processo de escrita.

Abaixo, as três primeiras páginas do argumento de Sr e Sra Smith. O original, completo e em inglês, pode ser acessado aqui.

Então, o argumento deve ser uma viagem agradável pela história do roteiro, deve passar pelos personagens e situações da forma e ordem em que elas aparecerão no roteiro. Pela característica mais próxima ao conto, o argumento pode ser mais poético, conter certas abstrações que não cabem ao roteiro. De qualquer forma, procure não ser abstrato demais, pois isso dificultará a escrita do roteiro. Assim, evite dar informações que o público não receberá no roteiro, bem como incluir backstory e qualquer situação que não estará narrada ou dramatizada no roteiro.

Cada uma das etapas que um roteirista passa até chegar ao roteiro tem como função aprofundar ou explicitar uma questão da história, e ao argumento cabe desenvolver o enredo, o plot. Por isso, o argumento é escrito, pensado e desenvolvido em cima dos beats. Nessa etapa eles são mais importantes do que as cenas propriamente ditas. Então se eu tenho um beat importante para minha história e ele está em um dialogo, como alguém revelando algo para alguém, esse beat deve estar presente na minha escrita do argumento, não é comum se colocar o dialogo em si, mas fazer menção a ele de forma indireta. Veja no exemplo abaixo de O Iluminado.

Apesar de não existir uma formatação precisa para o argumento, os diálogos não costumam ir de forma descriminada como lemos em contos ou romances ( com dois pontos, travessão, etc). Eles vão diluídos na própria prosa como citações ou ou como textos corridos.

Abaixo, as três primeiras páginas do argumento de O Iluminado de Stanley Kubrick. O original, completo e em inglês, pode ser acessado aqui.

Alguns roteiristas gostam de trabalhar com divisões sutis na escrita do argumento. Então alguns vão escrever cenas como parágrafos. Cada novo paragrafo do argumento seria equivalente a uma nova cena no roteiro. Essa formatação costuma deixar o argumento extenso. Outros preferem trabalhar com os parágrafos equivalentes a sequências. Mesmo que mude o tempo ou o local, se as cenas que se sucedem tem uma mesma função dramática, elas estão compreendidas em um só paragrafo. Não existem certo ou errado em argumento, é uma questão de gosto, estilo e de facilitar a cadência e o ritmo da leitura.

Também existe controvérsia a respeito do tamanho de um argumento. Lá fora, alguns dizem que deve ter até 60 páginas. Outros dizem que deve ter uma página. No Brasil costuma vigorar o padrão de 1 página de argumento para 10 páginas de roteiro. Isso quer dizer que para um roteiro de 90 páginas, você teria aproximadamente 9 páginas de argumento. Mas não é uma norma, argumentos entre 3 e 5 páginas também são comuns.

Abaixo, a primeira página do argumento de 17 mil palavras de O Exterminador do Futuro de James Cameron. O original, completo e em inglês, pode ser acessado aqui.

Como não existe uma convenção a respeito disso, o ideal é ter em mente, qual a função do seu argumento. No caso, usar a proporção de 1 para cada 10 páginas é um boa métrica para um argumento de processo de escrita, pensando como um rascunho para o seu trabalho de roteirização, isso te dará um argumento bem detalhado e facilitará os processos de escaleta e roteirização. Mas talvez não seja muito bom para um argumento que tem como propósito apresentar seu roteiro, ser incluso em um projeto de venda ou em um concurso, por exemplo. Argumentos de venda costumam ser mais eficazes se forem mais curtos. Nesses casos, observe as próprias solicitações, é interessante ficar atento as exigências de cada um especificamente. A Ancine, por exemplo, no seu último edital de Desenvolvimento pedia argumentos de no máximo 100 linhas, fosse para um longa ou para o argumento geral de uma temporada de série. Então, tome cuidado, o argumento pode ter tamanhos distintos, mas deve-se manter a sua essência em qualquer uma delas, contar a sua história, desenvolver o enredo e incluir os beats mais importantes.

Mantenha simples e atrativo!

Continuem escrevendo!

PS: Nós já falamos sobre isso, mas vale a pena repetir: não confunda o Argumento americano, chamado de Treatment, com o tratamento brasileiro. Apesar da tradução literal de treatment ser tratamento, o termo é um falso cognato, o termo americano é referente ao processo de argumento. O nosso Tratamento é um versão de um roteiro escrito, assim cada processo de escrita seria um novo tratamento, um equivalente ao termo americano Draft. O erro é tão comum que o livro Por Dentro do Roteiro de Tom Stempel tem uma edição da tradução brasileira inteira com este erro de tradução, nomeando os argumentos de diversos filmes citados no livro como tratamentos.

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