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  • Jaqueline M. Souza

Voice Over: o domínio da técnica mais execrada dos roteiros


O Voice Over nasceu logo após o surgimento do cinema sonoro, mas se tantos filmes reconhecidos por sua qualidade utilizam Voice Over, porque a técnica ainda é tão mal vista no cinema?

"... e Deus te ajude se você usar a narração em seu trabalho, meus amigos. Deus te ajude! É escrita flácida, descuidada. Qualquer idiota pode escrever narração de Voice Over para explicar os pensamentos de um personagem. Você deve apresentar os conflitos internos de seu personagem em ação. " - Diálogo do filme Adaptação

A narração em Voice Over tem uma má reputação no cinema, isso é fato. Desde de sempre escutamos, principalmente nas críticas cinematográficas, que narrações em Voice Over são ruins, são muletas, são extremamente literárias, redundantes, etc.

A citação do início do texto foi retirada do filme Adaptação e define o termo mais repetido a respeito do uso do voice over: Preguiçoso. Curioso é que a fala é uma ironia dramática, onde um fictício Robert Mckee crítica o que será o próprio filme em que habita, iniciado logo na página 1 do roteiro, veja só, por uma longa narração Voice Over de seu protagonista, um fictício Charlie Kaufman. E se tem uma coisa que Charlie Kaufman, como roteirista, está longe de ser é preguiçoso.

É bom sempre lembrar que nem todo Voice Over (V.O) é narração. Narração se relaciona ao conteúdo e a forma da fala: alguém no ato de comunicar uma narrativa. No caso da narração em Voice Over, essa comunicação é feita sobre uma imagem, extra diegese da cena.

Muitas vezes, é verdade, um roteirista não encontra recursos visuais e ações para contar a história, e assim recai sobre a Narração em Voice Over como um recurso de apoio, uma muleta. E é um problema especialmente difundido com filmes adaptados da literatura, principalmente porque a narração Voice Over é muitas vezes a maneira mais fácil de transpor a prosa para a tela.

Porém, quando bem escrito e bem utilizado, a narração em Voice Over aumenta o impacto dramático, cria estilo, adiciona camadas de densidade, transmite informação, ajuda na construção de cronologias complexas, naturaliza a narrativa, aumenta a identificação com personagens, revela o estado psicológico de personagens, acentua a percepção de subjetividade de uma história, entre outras funções. Suas possibilidades são infinitas. Filmes muito bem quistos pelo público e pela crítica como Taxi Driver, Apocalipse Now, Crepúsculo dos Deuses, Clube da Luta, O Grande Lebowsky, Cidade de Deus, utilizam o recurso do Voice Over tão bem que seria impossível imaginá-los sem ele.

“Há alguns casos em que um voice-over é apropriado. BIG FISH, que adaptei a partir de um romance de Daniel Wallace, usa Voice Over extensivamente, porque o filme é sobre desvendar as histórias elaboradas que um homem diz. Uma vez que a narrativa é o centro do filme, faz sentido que os personagens vão narrar esses contos, tanto na câmera quanto fora.”John August

Mas então, por que o ódio generalizado contra a Narração Voice Over? A razão principal é que na maioria das vezes, ela é utilizada erroneamente. O problema principal encontra-se no fato de que alguns roteiristas tratam-no como parte do desenvolvimento da história. E assim, quando mal utilizado, o Voice Over pode ser facilmente removido do roteiro, e a história ainda seria exatamente a mesma. Ou ainda criam um filme em que história não se conta imageticamente, dependendo excessivamente do Voice Over para se criar uma unidade. Por outro lado, outro erro comum é criar histórias em que o Voice Over faz toda a exposição e resta as cenas, apenas ilustrar o que é dito pelo narrador.

"A coisa mais irritante em o Grande Gatsby (que eu gostei no geral) foi o voice-over de Tobey Maguire . "Ele tinha o tipo de sorriso que parecia acreditar em você, e entender como você queria ser acreditado e entendido", diz Tobey sobre um plano de Leonardo DiCaprio dando-nos exatamente esse tipo de sorriso. E então, mais tarde, "Gatsby olhou naquele momento como se tivesse matado um homem", Tobey diz sobre uma imagem de DiCaprio olhando - sim! - exatamente como alguém que matou um homem." -Anne Billson em crítica do The Telegraph

O uso mais sensato do Voice Over é simplesmente não utilizá-lo para o que pode ser resolvido com ação ou diálogo. Isso significa criar cenas que dão informações importantes e imagens e sons no lugar de uma explicação verbal. O voice over seria então usado não para contar a história e sim para comentar a história já sendo contada através de ações e diálogo.

Ao dominar a técnica é possível explorar outras nuances, recursos estilísticos ou mesmo jogos de linguagem através do Voice Over. O problema principal é que de tanto se negar a possibilidade de qualidade narrativa com Voice Over, muitos roteiristas acabam tendo minada a chance de aprofundar e experimentar a técnica, e no dia em que se arriscarem a escrever com uma narração em Voice Over, provavelmente, farão sem nenhuma riqueza dramática.

Então mais uma vez, nenhuma técnica é boa ou má por si só, são os usos, os contextos, a experiencia em dominar a técnica que levam aos bons resultados. Para começar, nada melhor que estudar obras que fazem bom uso do Voice Over para aprender como e quando utilizá-lo.

Separamos alguns títulos para iniciar os estudos e reconhecer possibilidades além do Voice Over tradicional e "preguiçoso":

Cassino

Apesar de ser sempre comparado a Os Bons Companheiros, Cassino tem uma narração Voice Over rara, mesmo para a filmografia de um diretor acostumada a utilizá-la. Aqui o Voice Over é compartilhado entre dois personagens, Sam e Nicky. O filme joga com os recursos da técnica o tempo todo, introduz Voice Over de outro personagem no meio do filme e até brinca com o Voice Over e a continuidade temporal, uma jogada só possível para quem entende a linguagem e a domina como ninguém.

Trainspotting

A narração de Transpotting é exemplar no quesito estilo. Uma das características mais marcantes do Voice Over é dar uma assinatura ao filme, arrematando o tom, ritmo e clima criados na obra. Seria fácil pensar no gênero Noir como exemplo de estilo, com a narração que classicamente assume um tom sombrio e pesado, mas filmes diversos conseguem sintetizar seu estilo na escrita e interpretação do Voice Over e Transpotting é exemplar nesse contexto, já que leva o ritmo acelerado e alucinado para a narração.

Arrested Development e Todo Mundo Odeia o Cris

Outra possibilidade da narração Voice Over é a de se criar comicidade. Séries de comédia usam frequentemente o Voice Over para quebrar a expectativa, ironizar, estabelecer uma gag, brincar com a linguagem, comentar a ação de personagens ou contradizer uma imagem. Diversas séries usam a técnica em medidas maiores ou menores, How I Met Your Mother, leva a narração e a cronologia para primeiro plano, criando piadas temporais, muitas das quais não funcionariam sem um narrador; Blackish usa as narrações para estabelecer o conflito e como transição entre as tramas A e B de cada episódio. Entretanto, se você quer realmente pensar em todas as possibilidades cômicas reunidas e exploradas ao seu limite, estude Arrested Development e Todo Mundo Odeia o Cris. No primeiro, um narrador onisciente e extra diegético, destila comentários ácidos, trocadilhos ou apenas verdades sobre situações absurdas e a família desfuncional. Em, Todo Mundo Odeia o Cris, o narrador tem como primeira função apresentar o universo, as pessoas do bairro, a família, os hábitos da época para o público e acima de tudo fazer com que vejamos o mundo sob a ótica de Cris. A narração poderia parar por aí, mas vai além, usa todo o conhecimento daquele universo para criar humor; brinca constantemente com metalinguagem e cria um campo paralelo, onda as fantasias, pensamentos e comparações do jovem podem se materializar.

Beleza Americana

Às vezes você precisa entregar uma informação muito específica. Pode-se até criar uma cena que passe a mensagem, mas nem sempre ela terá um impacto tão fulminante. Exemplo? A abertura de Beleza Americana, quase à queima-roupa, em que Lester, o protagonista, nos conta que tem 43 anos e em menos de um ano estará morto.

A informação poderia ser dada de milhares de outras formas, mas não podemos negar que com o Voice Over preciso e meticuloso, de uma só vez foi possível apresentar o protagonista, definir seu estado psicológico, estabelecer clima e dar uma informação essencial para a conceituação da história. Tudo isso com estilo e impacto.

Westworld

A primeira utilização marcante do Voice Over no cinema é em M , o Vampiro de Dusseldrf (1931) de Fritz Lang, onde o som das conversas telefônicas do comissário da polícia explicando os esforços para encontrar o assassino de crianças é utilizado sobre imagens dos detetives seguindo as pistas. As narrações em Voice Over desse tipo, com o deslocamento sonoro de diálogos, podem ser utilizadas como uma forma mais sutil, mas ainda mantem a característica de narração. É o que faz Westworld ao longo de quase toda a primeira temporada. O áudio de cenas de entrevistas entre os técnicos e os anfitriões, é constantemente deslocado sobre outras cenas, criando novos significados, contextos e dando clima para as sequências. Esse tipo de Voice Over pode facilmente passar despercebido por muitos como uma forma de narração, mas é extramente eficiente, o autor consegue os efeitos que deseja, mas sem assumir os riscos de uma narração voice over assumida.

E você, é um inimigo mortal das narrações em Voice Over? Qual sua narração em Voice Over favorita?

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