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  • Tertúlia Narrativa

Laboratório Novas Histórias- 20 anos ajudando a construir a história do roteiro brasileiro


Quem vê o sexto grafado ao lado do nome do Laboratório Novas Histórias deste ano, pode deixar passar que os Laboratórios de Roteiro para Cinema promovidos pela Esmeralda Produções reúnem vinte anos de história do cinema contemporâneo brasileiro. Ao longo dos anos, passaram pelos Laboratórios de Roteiros organizados por Carla Esmeralda quase 150 roteiros. São obras como "Cidade de Deus", de Bráulio Mantovani, "Durval Discos", de Anna Muylaert, "Se Eu Fosse Você", de Carlos Gregório, "Latitude Zero", de Di Moretti, "O Invasor", de Marçal Aquino, "Sal de Prata", de Carlos Gerbase, "Desmundo", de Alain Fresnot, "O ano em que meus pais saíram de férias", de Cao Hamburger e Claudio Galperin, "Serras da Desordem", de Andrea Tonacci, "Cinema, Aspirinas e Urubus", de Marcelo Gomes, "Eu, Tu Eles", de Elena Soárez, "Kenoma", de Eliane Caffé, "Brava Gente Brasileira", de Lucia Murat, "Mutum", de Sandra Kogut e Ana Luiza Martins Costa, dentre diversas outras obras que ajudaram a construir a história do cinema brasileiro recente.

As inscrições para a edição deste ano estão abertas e nós conversamos com Alexandre Sivolella, Coordenador Geral do laboratório, para saber um pouco mais sobre o 6° Laboratório Novas Histórias.

TN: Como surgiu o Laboratório Novas Histórias?

Alexandre Sivolella: O Laboratório Novas Histórias surgiu do interesse de José Carlos Avellar, então na RioFilme, em aprofundar o relacionamento com o Sundance Institute após a premiação de "Central do Brasil", de Walter Salles, com o recebimento do prêmio NHK/Sundance pelo roteiro do filme, a cargo de João Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein. A primeira edição dos laboratórios de roteiro aconteceu em 1996, sem a participação da Esmeralda Produções. A partir de 1998, os laboratórios de roteiros começaram a ser realizados no Brasil pela Esmeralda Produções com a RioFilme e já com as parcerias do Sesc São Paulo (1999) e Sesc Rio (2001/2010) e retornaram para o Sesc São Paulo em 2011, ancorados na parceria com o Senac São Paulo e a chancela Laboratórios Novas Histórias – Programa Sesc SP/Senac São Paulo de Desenvolvimento de Roteiros. Esta é a 6ª. edição dos novos laboratórios, com a denominação Laboratório Novas Histórias, a 7ª. edição em parceria com o Sesc SP e a 20ª. edição de laboratórios de roteiro organizados pela Esmeralda Produções.

O grupo de roteiristas e consultores do V Laboratório de Roteiros Sundance/Riofilme no SESC Nogueira, em Petrópolis/RJ em 2001. Fonte: http://bit.ly/2axUt0n

TN: O que mudou desde o primeiro Laboratório?

Alexandre Sivolella: O cinema brasileiro mudou, as formas de financiamento mudaram, o acesso de novos talentos ao "fazer cinematográfico" foi facilitado e há novas safras, com mais filmes e mais diversidade de pensamento e de narrativas. Os laboratórios acompanham estas tendências e trabalham o que está por vir, respeitando a pluralidade e abraçando também as novas gerações.

Autores e Consultores da 5° edição em 2015. Fonte: http://bit.ly/2aIPoSi

TN: O que vocês sabem hoje sobre roteiro ou sobre os roteiristas brasileiros que gostariam de saber antes?

Alexandre Sivolella: Aprendemos que os roteiristas devem ser autores de suas histórias, mesmo quando trabalham por encomenda. Aprendemos que histórias não podem ser trabalhadas "tecnicamente" se não expressam as almas de seus escritores. Aprendemos que os roteiristas querem imaginar mundos, mas que devem ter referências de como contar estas histórias. Aprendemos que o processo criativo, às vezes, é mais importante que a técnica, mas que desconhecer a técnica impede a construção das pontes entre o imaginário e a realização da obra. Aprendemos que é muito difícil estabelecer a linha tênue entre contribuir com a estruturação de um roteiro e ditar regras, mas que o diálogo e as discussões sobre processos criativos contribuem para que os autores se fortaleçam no processo de amadurecimento e de suas obras e de si mesmos como roteiristas. Aprendemos que o processo de troca deve estabelecer uma conexão delicada entre dois criadores em um ambiente acolhedor e que é importantíssimo garantir a integridade desse espaço de escuta, de intercâmbio de experiências e sensibilidades.

TN: Porque a escolha desta edição de dar destaque para projetos infanto-juvenis? Pode falar um pouco sobre esta escolha? É uma demanda atual do mercado brasileiro ou a proposta é incentivar a produção voltada para o público infantil e juvenil pela base da cadeia produtiva?

Alexandre Sivolella: Queremos incentivar a criação de novas obras cinematográficas dedicadas à infância, afinal, são milhões e milhões de crianças brasileiras e, para além da clareza que temos que nossas crianças merecem que nos dediquemos aos seus imaginários, elas serão os nossos espectadores do futuro. É um processo misto e que contempla o presente e o futuro, sem deixar de olhar para as experiências, as lições e as inspirações do passado.

TN: O que faz com que um roteiro se destaque entre centenas de outros?

Alexandre Sivolella: O roteiro campeão é aquele que você não consegue parar de ler, especialmente quando os personagens são bem apresentados e, você quer acompanhar aquela história até o fim, porque você se afeiçoa ao universo dos personagens e à vida que é criada entre eles. Os diálogos fluem narrativamente, as cenas contribuem para o andamento da história e você consegue ler sem se perguntar que horas, sendo absorvido pela arte de contar uma boa história.

TN: Quais os erros mais comuns cometidos pelos roteiristas?

Alexandre Sivolella: Quando não é a pouca intimidade com as regras que seguram a estrutura de um roteiro, é a inabilidade de lidar com a complexidade dos personagens, com personagens ainda imaturos e com pouca densidade. Isso prejudica o roteiro, a direção e a própria interpretação. Igualmente, os diálogos óbvios, explicativos e didáticos nos incomodam muito nos roteiros que analisamos recentemente.

TN: O que pode ser mais desafiante na realização de um laboratório de roteiro no Brasil?

Alexandre Sivolella: Realizar um laboratório, além dos desafios referentes à organização de um evento dessa magnitude (como hospedagem, transportes, contratação de fornecedores etc.), é complexo porque é necessário construir uma rede de relacionamentos com roteiristas e especialistas em roteiro não apenas no Brasil, mas em diversos outros países. São esses profissionais, altamente especializados e dedicados ao seu trabalho, que nos ajudam a promover um espaço privilegiado para o desenvolvimento dos roteiros selecionados. Da mesma forma, o processo que leva aos roteiros selecionados, ou seja, a análise dos roteiros inscritos para seleção dos que terão a oportunidade de participar do Laboratório Novas Histórias, depende de uma leitura atenta por parte dos membros da comissão de seleção, que se dedicam por semanas a fio à leitura dos roteiros. Essa imensa colaboração com a comunidade de roteiristas brasileiros e internacionais é que sustenta a existência dos laboratórios de roteiro.

TN: Como são essas “Novas Histórias”? O que esperar de projetos que passaram pelo laboratório?

Alexandre Sivolella: Esperamos que ao passar pelo Laboratório Novas Histórias os roteiristas selecionados possam encontrar uma correspondência real entre seus desejos e objetivos e o que está consubstanciado no roteiro escrito. Nosso objetivo é ajudar os roteiristas a escrever melhores roteiros e eles mesmos a se tornarem melhores roteiristas.

TN: Que legado o Laboratório Novas Histórias está construindo no cinema brasileiro?

Alexandre Sivolella: Os laboratórios, que estão em sua 20ª. edição, já construíram o legado de lançar ao mercado novos roteiristas e de terem funcionado como um fórum para trocas criativas que apoiaram estas novas gerações (1996/2016) de roteiristas. Muitos filmes maravilhosos participaram das edições! Agora queremos identificar os "novos novos", porque o mercado audiovisual é construído da consolidação de talentos integrados e da inserção de novos talentos.

“Que Horas Ela Volta?“ de Anna Muylaert participou do laboratório em 2011.

TN: Pra encerrar, quem é seu roteirista favorito? Por que?

Alexandre Sivolella: São muitos, especialmente aqueles que trazem em seus roteiros personagens complexos e histórias que se tornam inesquecíveis, como Christopher Hampton, Curtis Hanson, Marcelo Gomes, Jorge Furtado, Peter Morgan, Terence Winter, Hilton Lacerda... São muitos!

As inscrições seguem abertas até o dia 5 de agosto. Para saber mais, acesse o site da Laboratório Novas Histórias.

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