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  • Jaqueline M. Souza

Escrevendo para Baixo Orçamento


José Mojica Marins, filmes com baixo orçamento e alta popularidade

O cinema de guerrilha, com financiamento baixo ou nulo, e mais recentemente com as possibilidades de financiamento coletivo, é sempre uma boa porta de entrada para novos realizadores, seja em curtas-metragens ou em longas. Se de um lado estes filmes de baixo orçamento impõem limitações de produção aos realizadores, de outro são território fértil para explorar a criatividade e a narrativa.

Exemplo atual para isso é A Bruxa, exibido recentemente nos cinemas brasileiros. O filme tem sua produção enxuta focada no clima de tensão da história e em atuações memoráveis. O gênero do terror, por sinal, dialoga magnificamente com o baixo orçamento, que o digam filmes como A Bruxa de Blair, Atividade Paranormal ou ainda realizadores especializados no gênero como Roger Corman ou de José Mojica Marins, nosso querido Zé do Caixão. Mas nem só de filmes de terror vive o baixo orçamento: Mad Max (o primeiro, de 1972) tinha orçamento de 200 mil dólares, algo pouco superior a um milhão de dólares se corrigidos para os dias de hoje. Eraserhead (1977) de David Lynch custou na época 20 mil dólares. Em 2004, Napoleon Dynamite foi realizado com U$ 400 mil dólares e arrecadou nas bilheterias U$ 46 milhões. E não podemos esquecer do vencedor do prêmio de público em Sundance de 1993, El Mariachi de Robert Rodriguez, um filme de ação com o orçamento estimado em 7 mil dólares.

Roger Corman, o rei do baixo orçamento ao lado do lendário ator Vincent Price.

No Brasil, algumas produtoras chegam a pedir o orçamento do filme para o roteirista, infelizmente, um dos sinais de um mercado que ainda engatinha para a maturidade. Não é função do roteirista orçar um projeto, e o orçamento de um filme NUNCA deve ser realizado pelo roteirista e sim por um Produtor Executivo. Entretanto é justo e necessário que um roteirista tenha consciência dos custos de produção que envolvem a realização do seu roteiro.

"Meu maior erro, voltando para O Show de Truman, foi que eu escrevi meu filme mais caro, primeiro. E você simplesmente não pode fazer isso. Lembro-me de falar com a chefe do estúdio na época e ela dizer: "Não há nenhuma maneira para que um primeiro filme receba um orçamento de U$ 80 milhões. Mas gostaríamos de dar-lhe $ 20 milhões.” Então eu saí e escrevi Gattaca - Experiência Genética (1997) e fiz com a certeza que não ultrapassasse $ 20 milhões. E então, eles me deixaram fazê-lo".

- Andrew Niccol

Andrew Niccol- Roteirista de O Show de Truman e Roteirista/Diretor de Gattaca e O Preço do Amanhã

Muitas das escolhas para um baixo orçamento passam pela produção e direção do filme, mas por base, um roteiro já trás em si as indicações das necessidades básicas para estimar o custo de produção do filme. Mas como roteirista, como escrever um filme de baixo orçamento? Que fatores são importantes para que não seja necessária uma super produção para tirar o projeto do papel?

Abaixo, alguns dos itens para se manter em mente ao escrever para baixo orçamento:

Contexto Histórico

Um filme passado nos dias de hoje, será mais barato que um filme de época, em que será necessário mandar produzir ou encontrar peças que reproduzam as roupas e móveis do período. O futuro também pode ser caro, mas depende da conceituação do universo presente no roteiro (ou na bíblia do projeto) . Um futuro pode ser tanto apocalíptico e seco, como o deserto de Mad Max, quanto em high tech e digital quanto em Tomorrowland, e as diferenças não são apenas visuais, mas também em cifras.

Mad Max, um futuro desértico e barato. Narrativa eficiente com conceituação visual econômica em um sucesso do cinema australiano.

Universo

Já falamos um pouco disso no item anterior, mas só para deixar claro, se sua história se passa em um ambiente rico e refinado, você vai gastar mais para produzi-lo ou recriá-lo. E não só isso, mas se seu universo exige a criação de cenários em computação gráfica, e se isso precisa ser realista ou hiper realista, com certeza também vai jogar o orçamento nas alturas.

Cenas perigosas

Na hora de escrever é maravilhoso e poucos observam o que realmente envolve a produção de algumas sequências perigosas. Cenas de perseguição envolvem os carros e os danos causados aos veículos (podem ser reais ou apenas efeitos) ,o fechamento de ruas, dublês, seguros mais altos, etc. Então vale a pena pensar se a cena realmente irá acrescentar algo essencial a sua história que não possa ser realizado de outra forma menos custosa.

Poucas locações

Em um dos primeiros post da nossa página no Facebook, nós falamos sobre os Bottle Episodes, episódios de séries que são escritos com o mínimo de recursos possíveis, com fins de baratear a produção. Existem vários Bottle Episodes famosos desde Breaking Bad até Friends, mas o mesmo conceito se aplica a escrita de filmes. Locações custam dinheiro, além de envolver os gastos de transporte de equipe e equipamento, então quando você trabalha com um número menor de locações provavelmente irá ter um custo menor. O cinema independente americano do começo dos anos 90 (Cães de Aluguel, O Balconista, etc.) era campeão em usar poucos locações com destreza.

Robert Rodriguez escreveu o roteiro de El Mariachi tendo em mente as locações ao alcance da produção.

Simplifique

Alguns autores confundem a grandiosidade do roteiro com sequências de ação ou cenas grandiosas. Apesar de histórias High Concept atraírem mais o público, é a qualidade da narrativa que torna um filme grandioso. Pense nas suas cenas favoritas, provavelmente elas não são memoráveis por ter explosões, um numero alto de figurantes ou carros voadores, mas sim por ser um momento de genuína proximidade entre dois personagens ou por um momento de confronto entre personalidades distintas (pense em algumas das cenas mais icônicas de O Poderoso Chefão), ou ainda revelar um aspecto profundo e sombrio do ser humano ou pelo contrário, revelando a comicidade de situações improváveis.

Frances Ha, a utilização do formato character driven story é sempre uma forma eficiente de diminuir custos de produção

Lembre-se que você como roteirista deve ter uma perspectiva realista do método de produção, para entender em que mercado e para que tipos de financiamento seu filme se adequa, seja produzindo sob demanda ou para tentar vender seu roteiro. Um roteiro que exige uma mega produção, raramente será o ponto de partida de uma produtora pequena. Um realizador com pouca experiência dificilmente irá convencer órgãos de financiamento que possui as habilidades para um projeto com orçamento ambicioso. O roteiro não é a obra em si, e por isso não adianta tentar desvinculá-lo do restante do sistema de produção cinematográfica.

E pra encerrar, uma dica do mestre do baixo orçamento, Roger Corman:

“É tudo sobre a história e o roteiro. Eu coloquei uma ênfase muito grande na história. Tudo começa com a história e o desenvolvimento da história em um roteiro. E eu coloco uma enorme ênfase no roteiro. Eu nunca vi um bom filme feito a partir de um roteiro ruim. Talvez alguém tenha feito isso em algum lugar, mas eu nunca vi isso feito. Você desenvolve o seu roteiro até o ponto onde você diga que está pronto para ser filmado. E a menos que você esteja sob algum comissionamento, como se o filme tiver sido encomendado, você espera até que o roteiro esteja certo. Leve o seu tempo. Tenho certeza que você já ouviu a declaração de William Goldman, um roteirista vencedor do Oscar ". Ninguém sabe nada". Eu mudaria para: "Ninguém sabe tudo." Você sabe razoavelmente bem quando [um roteiro] parece pronto para você. E você deve tentar fazer o melhor filme que você pode fazer com as circunstâncias dadas, o que normalmente significa o orçamento definido. Você deve reconhecer suas limitações e não escrever sequências para um filme de U$ 200 milhões e assim por diante. Você deve escrever para o seu orçamento, mas deve aproveitar quando tiver locações naturalmente boas. “


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