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  • Marcos Hinke

Os piores atalhos dramáticos dos roteiros


Um roteiro é composto de metas, tanto para a pessoa que o escreve quanto para os personagens contidos na história, que devem atravesar uma jornada para construir uma narrativa satisfatória e gratificante.

Como a jornada é longa, é natural cairmos na tentação de pegar alguns atalhos para concluir a escrita, criando apenas os pontos importantes da história e ignorando nuances drámaticas, resultando em cenas e personagens que não servem para nenhum propósito a não ser preencher tempo.

Clichês são dificeis de perceber no momento da criação, por isso, é fácil encontrar roteiros que refogam, temperam e recheiam suas páginas com artifícios batidos na tentativa desesperada de criar profundidade dramática. Técnicas e dispositivos não funcionam isoladamente dentro de um roteiro, tudo precisa de um contexto e uma construção coesa para envolver o leitor (espectador) em um nível emocional com os personagens.

Listamos alguns dos atalhos utilizados por roteiristas apressados, que acabam se amparando em técnicas batidas para tentar inserir dramaticidade em seus roteiros:

Final Surpreendente - O Deus ex Machina moderno

Quando a história vai mal e os personagens são desinteressantes, simplesmente revelar que o protagonista estava morto o tempo todo não vai salvar seu roteiro.

Bons filmes com finais surpreendentes não se apoiam na surpresa, na verdade, eles envolvem o espectador naquele universo de uma maneira tão profunda que a catarse é causada justamente pela credibilidade daquela história e empatia pelos personagens.

Reviravoltas satisfatórias são extremamente dificeis de alcançar, mas quando são bem feitas o resultado é catártico. Pense em Os Suspeitos ou Clube da Luta, dois ótimos exemplos de personagens sólidos e narrativas coesas, com reviravoltas inesperadas, mas ao mesmo tempo inevitáveis, onde o final se comunica com o todo.

Finais surpreendentes devem ser orgânicos, apenas mudar a lógica interna de tudo que foi apresentado até o clímax não causará surpresa no público, ele apenas se sentirá enganado.

Estereótipos (com a desculpa de ser paródia)

Em primeiro lugar, é preciso ficar bem clara a diferença entre arquétipo e estereótipo. O arquétipo está antropologicamente ligado com o inconsciente coletivo, ou seja, significados atribuídos através da experiência humana de interação com o mundo. Em narrativas, isso é traduzido através de personagens recorrentes que servem propósitos específicos dentro das histórias, suas características e funções podem ser incorporadas por qualquer tipo de personagem, independente de gênero, idade ou até mesmo espécie. Por exemplo, o arquétipo do Mentor, um ser sábio e experiente cuja função é orientar a protagonista pode ser incorporado por um guerreiro idoso em Star Wars, uma Bruxa Boa em O Mágico de Oz ou por um grilo falante em Pinóquio.

Estereótipos são generalizações pré concebidas sem qualquer base, através de traços genéricos e geralmente preconceituosos, utilizados para descrever determinados grupos de pessoas. A loira burra, o gay histérico e extremamente afetado que só pensa em sexo, homens negros violentos, mulheres indefesas e ingênuas, etc.

Infelizmente, uma grande parcela do humor brasileiro é pautada por estereótipos, o que só vem reforçando por décadas a ideia de que preconceitos são apenas piadas inofensivas e que aqueles que contestam são “vitimistas” ou a “patrulha do politicamente correto”.

É comum encontrar roteiristas apresados se ancorando em estereótipos, e na tentativa de disfarçar que se trata de um personagem fraco e preconceituoso o descreve como “bem estereotipado e exagerado”, exagerar o estereótipo não o torna menos estereotipado e muito menos, cômico.

Narrativa não-linear para esconder a falta de dramaticidade

A não linearidade pela não linearidade é uma trapaça do gênero “A nova roupa do rei”, apenas os “inteligentes” conseguem ver complexidade naquela história, independente da sua existência.

A quebra da cronologia pode determinar nossa relação com a história e os personagens, porém, se não há nada de interessante a ser contado, não adiante apenas mudar a ordem dos eventos e acreditar que um quebra cabeças vai adicionar profundidade automaticamente.

Para ser um bom quebra cabeça, o resultado como um todo deve ser gratificante, desde a procura pelas peças certas até a formação do quadro geral. Pense em bons filmes com a estrutura não-linear e tente imagina-los em ordem cronológica. Por exemplo, “Amnésia” ainda seria um bom filme policial, a sua estrutura acrescenta um nível de dramaticidade ao colocar o espectador na mesma posição do protagonista, estando longe de ser apenas uma ferramenta de apoio.

Não é só pra disfarçar a falta de história que roteiristas apressados se apoiam na narrativa não linear. Criar personagens tridimensionais é um dos maiores desafios do ofício, pois são através deles que vivenciamos o universo apresentado nas páginas do roteiro.

Desesperados para criar empatia entre o leitor/espectador, roteiristas apressados se apoiam em flashbacks de traumas ou de ambições não correspondidas para tentar validar o que o personagem está fazendo (ou não fazendo, pois é mais fácil criar personagens inertes e desmotivados) no tempo presente. Não são ações isoladas que definem as pessoas, porque deveríamos acreditar que apenas um fato transformou aquele personagem em quem ele é hoje?

Referências gratuitas

Em tempos de pós-modernismo é praticamente impossível fugir de referências. Vivemos na era dos reboots e remixes, um movimento cada vez mais natural em um mundo conectado.

Por mais divertido que seja reconhecer referências em filmes, sejam elas visuais ou através de diálogos, um roteiro tem que ser muito mais do que isso, as pessoas não reservam duas horas de suas vidas para procurar o Wally na tela do cinema.

Qualquer atitude criativa tomada apenas para esbanjar seus conhecimentos culturais, seja da mais popular a mais elitizada, é pedante. Recriar cenas gratuitamente não é arte, é pastiche.

Aquela monólogo do assassino frio e fodão não vai se tornar filosofia apenas por ele teorizar sobre desenhos animados dos anos 90 antes de atirar em suas vítimas.

Passagens de sonhos ou delírios

Primo próximo do Final Surpreendente, são comumente utilizado no segundo ato como metáforas dos conflitos (muitas vezes inexistentes) da protagonista. Personagens desmotivados em uma narrativa inerte são chamarizes para sonhos ou delirios, já que evocar imagens oniricas

aparenta impulsionar algum movimento e profundidade na história.

O personagem só fica deitado em seu apartamento o dia inteiro? Sem problema, só colocar visões de algum personagem morto que represente aquela imobilidade.

O protagonista está insatisfeito com sua vida tranquila e estável, mas mesmo assim não toma nenhuma atitude? Tranquilo, só colocar uma sequência de sonhos metaforizando aquela prisão com signos bem óbvios como correntes ou uma cela de prisão. O personagem nem precisa ter nada que o prenda de verdade na vida real, mas acrescente isso num sonho e voalá, de repente ganhou uma dimensão psicológica.

É muito fácil se confundir com clichês na hora da escrita, afinal, eles estão muito presentes em nosso insconsciente, justamente por suas repetições. Um bom roteiro tem voz ativa e gera engajamento sem apelação. Se em algum momento você notar que está dependendo de muitos artificios para mover sua história, aproveite um novo tratamento do roteiro para desconstruir esses artificios, você terá mais probabilidade de criar algo novo e especial. Senão, no final das contas, você só estará enganando a si mesmo.

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