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  • Marcos Hinke

Dicas preciosas do mestre Akira Kurosawa


O lendário cineasta defendia que para se tornar um diretor de cinema, antes de tudo era necessário dominar a arte do roteiro.

Akira Kurosawa é sem dúvida alguma, um dos mais brilhantes e influentes cineastas da história. Um dos poucos (entre muitos) mestres orientais a firmar nome no ocidente, seu cinema atravessou fronteiras e continua a influenciar cineastas do mundo. E apesar de ser muito mencionado por conta de seus grandiosos épicos de samurais como Os sete samurais, Yojimbo e Ran, Kurosawa era um artista delicado, metódico e completo, com um olhar atento a detalhes e uma bravura cinematográfica ímpar, sempre extremamente conectado com sua cultura, seu povo e sua história.

Um cineasta completo que se envolvia fortemente em quase todas as etapas da produção de seus filmes, da co-roteirização (Kurosawa achava importante obter múltiplos pontos de vista sobre os personagens desde sua concepção) até a edição. Assim, dificilmente podemos categorizar as maiores destrezas do cineasta, definido por Federico Fellini como “o maior exemplo vivo de tudo que um autor de cinema deveria ser”.

Mas para esse post, separamos algumas entrevistas e frases de Kurosawa (retiradas de sua autobiografia), em que ele discursa sobre a arte do roteiro. Suas percepções vão além de metodologias e regras, entrando na esfera da conexão emocional do artista com sua obra.

“Um bom roteiro encoraja uma equipe de filmagem a enfrentar condições quase insuportáveis. Um bom roteiro permite que uma equipe exiba suas habilidades ao máximo.”

Para Kurosawa, roteiros são organismos vivos que se desenrolam por conta própria. Para se criar algo novo, é necessária abordar aquilo que nunca foi retratado antes e isso deve ser feito através de personagens, e não da história. A história se forma naturalmente ao redor de personagens bem construídos. Segundo o cineasta: “Personagens em um filme possuem uma existência própria. O cineasta não tem liberdade. Se ele insiste em sua autoridade e se permite manipular seus personagens como marionetes, o filme perde sua vitalidade.”

Em sua autobiografia, ele compartilha sua visão do que é necessário para a escrita de roteiros e o domínio da arte de se fazer cinema: “Para escrever roteiros, você primeiro precisa estudar as grandes obras literárias do mundo. Você precisa considerar porque elas são excelentes. De onde vem a emoção que você sente enquanto as lê? Qual o grau de paixão que o autor precisa ter, que nível de meticulosidade ele precisa comandar, para retratar eventos e personagens como ele retratou? Você precisa ler atentamente até você identificar todas essas coisas. Você também precisa assistir grandes filmes. Você precisa ler grandes roteiros e estudar teorias de cinema de grandes diretores. Se seu objetivo é se tornar um diretor de cinema, você deve dominar o roteirismo.”

No documentário A Message from Akira Kurosawa: For Beautiful Movies, Kurosawa compartilha suas visões singulares em dez entrevistas concedidas próximas ao fim de sua vida. Além de seus insights sobre roteiro, o diretor também discute outros aspectos da construção cinematográfica e sua busca para realizar um belo filme. Infelizmente, só encontramos o filme com legendas em inglês:

E para finalizar com chave de ouro, traduzimos alguns excertos de um verdadeiro tesouro histórico envolvendo dois grandes mestres. Em 1991, o escritor Gabriel García Márquez visitou Tóquio durante as gravações do penúltimo filme de Kurosawa, Rapsódia em agosto. Eles conversaram por horas sobre vários assuntos. Aqui, separamos alguns trechos de Kurosawa discutindo sua abordagem em relação a roteiros. Caso tenha interesse, você pode encontrar a entrevista original na integra em inglês ou espanhol.

Gabriel García Márquez: Eu não quero que essa conversa entre amigos pareça uma coletiva de imprensa, mas eu tenho essa grande curiosidade para saber muitas coisas sobre você e seu trabalho. Para começar, eu tenho interesse em saber como você escreve seus roteiros. Primeiro, porque eu mesmo sou um roteirista. E segundo, porque você fez estupendas adaptações de grandes obras literárias, e eu tenho muitas dúvidas sobre adaptações que foram feitas ou podem ser feitas de minhas obras.

Akira Kurosawa: Quando eu concebo uma ideia original que desejo transformar em roteiro, eu me tranco em um hotel com papel e lápis. Nesse ponto, eu tenho uma ideia geral da trama e sei mais ou menos como vai acabar. Se eu não sei com que cena começar, eu sigo o fluxo de ideias que surgem naturalmente.

García Márquez: A primeira coisa que vem a sua mente é uma ideia ou uma imagem?

Kurosawa: Não consigo explicar muito bem, mas eu acho que tudo começa com várias imagens dispersas. Em contraponto, eu sei que os roteiristas aqui do Japão primeiro criam uma visão geral do roteiro, e depois de sistematizar a trama que eles começam a escrever. Mas eu não acho que essa é a forma correta de se fazer, já que nós não somos Deus.

García Márquez: Seu método também foi intuitivo quando adaptou Shakespeare ou Gorky ou Dostoevsky?

Kurosawa: Os diretores que fazem filmes adaptados não percebem que é muito difícil transmitir imagens literárias para o público através de imagens cinematográficas. Por exemplo, ao adaptar uma história de detetive em que um corpo foi encontrado próximo ao trilho do trem, um jovem diretor insistiu que um certo lugar correspondia perfeitamente com aquele do livro. “Você está errado”, eu disse. “O problema é que você leu o livro e você sabe que o corpo foi encontrado próximo aos trilhos. Mas para quem não leu, não há nada em especial sobre a localização.” Aquele jovem diretor estava cativado pelo poder mágico da literatura sem perceber que as imagens cinematográficas devem ser expressas de outra maneira.

García Márquez: Eu conheço poucos romancistas que ficaram satisfeitos com as adaptações de seus livros para as telas. Quais experiências você teve com suas adaptações?

Kurosawa: Permita-me primeiro lhe fazer uma pergunta: Você viu meu filme “O Barba Ruiva”?

García Márquez: Eu assisti seis vezes em 20 anos e falei sobre ele para meus filhos quase todos os dias até eles terem a oportunidade de assistir. Então, não é apenas um dos seus filmes mais apreciados por mim e minha família, mas como também é um dos meus favoritos de toda a história do cinema.

Kurosawa: “O Barba Ruiva” constitui um ponto de referência em minha evolução. Todos os meus filmes que o precederam são bem diferentes daqueles que o sucederam. Foi o fim de uma etapa e o começo de outra.

García Márquez: Isso é óbvio. Além do mais, dentro do mesmo filme tem duas cenas extremamente relacionadas com a totalidade de seu trabalho, e ambas são inesquecíveis; uma é o episódio do louva-deus e a outra é a luta de karatê no pátio do hospital.

Kurosawa: Sim, mas o que eu queria te contar é que o autor do livro, Shuguro Yamamoto, sempre se opôs a ideia de que seus livros fossem adaptados para o cinema. Ele abriu uma exceção para “O Barba Ruiva” porque eu persisti de maneira implacável até conseguir o que queria. Mesmo assim, quando ele terminou de assistir o filme, ele se virou pra mim e disse: “É bem mais interessante que meu livro.”

García Márquez: Por que será que ele gostou tanto?

Kurosawa: Porque ele tinha uma consciência clara das características inerentes do cinema. A única coisa que ele me pediu é que eu fosse muito cuidadoso com a protagonista, um fracasso de mulher, como ele a via. Mas o curioso é que essa ideia de mulher fracassada não estava explicita no livro.

García Márquez: Talvez ele pensa-se que estivesse. Isso é algo que acontece sempre com nós, romancistas.

Kurosawa: Deve ser. Aliás, ao verem os filmes baseados em seus livros, alguns escritores dizem: “Essa parte do meu romance foi bem retratada.” Mas eles se referiam a algo que foi adicionado pelo diretor. Eu entendo o que eles estão dizendo, porque eles podem ver claramente sendo expresso na tela, por pura intuição por parte do diretor, algo que eles tinham a intenção de escrever, mas não conseguiram.

García Márquez: É um fato conhecido que “poetas são misturadores de venenos”. Mas voltando ao filme que vocês está trabalhando agora [...] Qual a trama?

Kurosawa: É dificil resumir em poucas palavras.

García Márquez: Alguém mata alguém?

Kurosawa: Não. É simplesmente sobre uma idosa de Nagasaki que sobreviveu a bomba atômica e que os netos lhe fazem uma visita no verão. Não filmei nenhuma cena brutalmente realista que se provaria insuportável, mas mesmo assim não conseguiria explicar os horrores desse drama. O que eu gostaria de transmitir são os tipos de feridas que a bomba atômica deixou no coração de nosso povo, e como elas gradativamente começaram a se fechar. Eu me lembro muito bem do dia da bomba e até hoje não consigo acreditar que aquilo poderia acontecer no mundo real. Mas a pior parte é que os japoneses já deixaram cair no esquecimento. [...] As pessoas que sobreviveram Nagasaki não querem lembrar de sua experiência, porque a maioria deles, para sobreviver, tiveram que deixar seus pais, seus filhos, seus irmãos. Eles não conseguem não se sentirem culpados. Assim, as forças americanas que ocuparam o país durante seis anos influenciaram através de muitos meios a aceleração do esquecimento, e o governo japonês colaborou com eles. Eu estaria disposto a entender tudo isso como parte da tragédia inevitável causada pela guerra. Mas eu acho que, pelo menos, o país que lançou a bomba deve emitir um pedido de desculpas ao povo japonês. Até que isso aconteça, este drama não terminou.

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