Breve História do Roteiro

 

 

Ao pensarmos a história do roteiro, não podemos desassociá-la da própria história da produção cinematográfica. Os primeiros filmes eram muitas vezes projetos solo, desde a concepção até a conclusão. Logo, a maioria dos filmes foi filmada sem nada mais que uma vaga ideia na cabeça do realizador. Os primeiros roteiros eram pouco mais do que breves sinopses, conhecidas com Scenario.

 

"A partir de 1896-1901, scenarios foram escritos em forma de sinopse e raramente eram mais do que um parágrafo. Muitos, na verdade, eram ainda mais curto: eles incluíram um título e uma descrição de uma linha de ação a ser visto ". Isabelle Raynauld

 

Raynauld continua a observar como estes primeiros protoroteiros serviam também para uma função de marketing:

 

 

“Por exemplo, era uma prática comum imprimir os roteiros na íntegra (durante muito tempo, erroneamente considerados apenas resumos) em catálogos da empresa. Na verdade, os primeiros roteiros  não eram usadas apenas como material de publicidade, mas aos exibidores, também ajudava a explicar a história para novos espectadores inexperientes. Para os primeiros dez anos ou mais, os exibidores costumam contratar um narrador ou vendedor a comentar e esclarecer a história durante a projeção do filme.”

Por Jaqueline M. Souza

Fundada por  William Kennedy Dickson e Henry Norton Marvin, dissidentes do laboratório de Thomas Edison, juntamente com o inventor Herman Casler e do empresário Elias Koopman, a Mutoscope (posteriormente Biograph Company)  foi a primeira companhia estadunidense dedicada inteiramente à produção e exibição de filmes e por duas décadas foi a mais prolífica, realizando por volta de 3000 filmes curtos. Com a alta produção de filmes, em 1897, a empresa contrata Roy L. McCardell, jornalista e ex-escritor do New York Standart, que se torna o primeiro roteirista (scenarist) contratado por uma empresa. Ian Hamilton em Writers in Hollywood o descreve como “o primeiro homem, de qualquer lado dos oceanos, contratado sem qualquer outro propósito além de escrever filmes”.  Para a Mustoscope/Biograph, Roy L. McCardell escreveu mais de mil scenarios, sendo seu trabalho mais conhecido o do filme  A Fool There Was (1915), popularizando o filme de vampiros.  Em 1908, a Mustoscope/Biograph também contrata D. W. Griffith como roteirista e ator, e em pouco tempo, ele se torna o principal diretor do estúdio.  

Pillow Fight –Thomas Edison (1897)

 

Ao lado o filme Pillow Fight de 1897. Abaixo, trecho do catalógo do Edison Studios com o scenario do filme apresentado com sinopse para venda aos exibidores:

 

“Four young ladies, in their nightgowns, are having a romp. One of the pillows gets torn, and the feathers fly all over the room.”

Roy L. McCardell, o primeiro roteirista, contratado pela Mutoscope Company e autor de pelo menos mil roteiros. 

Depois de 1901, como os filmes cresceram em duração e as preocupações narrativas cresceram mais proeminentemente, a importância do roteiro como uma ferramenta conceitual aumentou. Fora dessa necessidade, de coerência narrativa, que nasce o roteiro.

 

"O roteiro do filme nasceuquando o filme já havia se desenvolvido em uma nova arte independente e já não era possível improvisar seus novos efeitos visuais sutis na frente da câmera; estes tinham  que ser planejados cuidadosamente com antecedência " Béla Balázs

 

Em seu Script Culture and the American Screenplay, Kevin Alexander Boon retira vários exemplos de roteiros iniciais, incluindo Uma viagem à Lua de Georges Melies e The Great Train Robbery de Edwin S. Porter, para demonstrar o rápido desenvolvimento de práticas de roteirização na virada do século. "Antecessores iniciais do roteiro faziam pouco mais do que moldar o contexto narrativo para uma cena", escreve Boon. "Uma das primeiras grandes infusões de história para o cinema foi de Georges Melies em Viagem à Lua (Le voyage dans la lune, 1902), que [. . .] envolveu um grande esforço de preparação de Melies. Uma parte desta preparação era a escrita de um roteiro escasso."

 

Viagem à Lua de George Mélies (1902)

O roteiro de Mélies par Viagem à Lua, era:

  1. The Scientific Congress at the Astronomic Club.

  2. Planning the Trip. Appointing the Explorers and Servants. Farewell.

  3. The Workshops. Constructing the Projectile.

  4. The Foundries. The Chimney-stack. The Casting of the Monster Gun/Cannon.

  5. The Astronomers-Scientists Enter the Shell.

  6. Loading the Gun.

  7. The Monster Gun. March Past the Gunners. Fire!!! Saluting the Flag.

  8. The Flight Through Space. Approaching the Moon.

  9. Landing Right in the Moon’s Eye!!!

  10. Flight of the Rocket Shell into the Moon. Appearance of the Earth From the Moon.

  11. The Plain of Craters. Volcanic Eruption.

  12. The Dream of ‘Stars’ (the Bolies, the Great Bear, Phoebus, the Twin Stars, Saturn).

  13. The Snowstorm.

  14. 40 Degrees Below Zero. Descent Into a Lunar Crater.

  15. In the Interior of the Moon. The Giant Mushroom Grotto.

  16. Encounter and Fight with the Selenites.

  17. Taken Prisoners!!

  18. The Kingdom of the Moon. The Selenite Army.

  19. The Flight or Escape.

  20. Wild Pursuit.

  21. The Astronomers Find the Shell Again. Departure from the Moon in the Rocket.

  22. The Rocket’s Vertical Drop into Space.

  23. Splashing into the Open Sea.

  24. Submerged At the Bottom of the Ocean.

  25. The Rescue. Return to Port and Land.

  26. Great Fetes and Celebrations.

  27. Crowning and Decorating the Heroes of the Trip.

  28. Procession of Marines and Fire Brigade. Triumphal March Past.

  29. Erection of the Commemorative Statue by the Mayor and Council.

  30. Public Rejoicings.

The Great Train Robbery de Edwin Porter (1902/1903)

Porter, do outro lado do oceano, já trabalhava com um roteiro mais desenvolvido com ações detalhadas e um tímido cabeçalho para cada cena. Ao lado, trecho do roteiro de The Great Train Robbery.  Disponível em www.screenplayology.com 

Thomas Ince, roteirista, diretor e produtor americano, conhecido como "Pai do Western". Fundador da Inceville e da Triangle Studios transforma o roteiro em uma peça fundamental para a produção de um filme. 

Uma nova etapa para os roteiristas se inicia na década de 1910, quando Thomas Harper Ince começou a fazer filmes.  Ao observar que as equipes ficavam durante muito tempo a espera do diretor, que planejava o que seria filmado a seguir, Ince acredita que o processo de produção de filmes padrão eram um desperdício e que era necessário um metódo mais eficaz e barato.  Para ele, a resposta ideal para esse processo mais produtivo se baseava no desenvolvimento de roteiros para os projetos.

 

Assim começou a colaboração de Ince com o escritor Richard Spencer. Spencer, como muitos destes primeiros roteiristas,  era um ex-jornalista e iria passar a escrever ou co-escrever muitos dos maiores filmes do Ince incluindo, A Batalha de Gettysburg e de Custer Last Fight. Segundo Hamilton, sob a orientação de Ince, “escrever para o cinema tornou-se verdadeiramente eficiente, pela primeira vez. . . e desenvolveu-se em um  núcleo indispensável do sistema de filmagem. O texto escrito que norteava a produção de um filme se tornou uma forma literária. O texto rendia os planos que posteriormente, o diretor filmava.”

 

Em 1912, Ince funda seu estúdio, o Inceville  na Califórnia. De forma simplificada, as idéias executadas em seu estúdio revolucionaram o cinema da mesma forma que Ford revolucionou a indústria. Conhecido por sua produção cinematográfica em grande escala, a coordenação de equipes numerosas, significava, por exemplo, que a praticidade era uma prioridade. Portanto, Ince exigia que todo filme deveria ter um roteiro antes da filmagem, que ele também usava para orçar a produção. Ince percebeu os ganhos de eficiência gerados pela divisão de trabalho durante todo o processo. Já não era o diretor o único que sabia que o plano de produção. Em todos os aspectos da produção, cada membro da equipe tinha agora o plano preciso de como cada filme deveria ser filmado.

 

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