top of page

Breve História do Roteiro - Parte 2

 

 

 

Primeira e última página do primeiro tratamento do roteiro de Felicidade Não Se Compra de Frank Capra (inicialmente intitulado The Greatest Gift) no formato Continuity Script. Observe as indicações de câmera, comuns no formato. Disponível em Oscars.org

Por Jaqueline M. Souza com excertos traduzidos de Screenplayology

“Na nova indústria (...) o roteiro de filmagem se torna a necessidade central no produção de filmes em um estúdio durante os anos 30. Não somente se podia 'decupadar' a história e sistematizar a continuidade, mas também indicava 'como' e 'o que' deveria ser filmado." Patrick McGillian 

 

Assim, o roteiro nasce de duas necessidades: a primeira, criativa, que visava levar ao público algo além da simples técnica, já que imagens em movimento de trens chegando à estação já não impressionavam e era necessário atrair o público através da narrativa, posto que a linguagem não era mais um atrativo por si só. A segunda necessidade era antes de tudo um fator financeiro, para reduzir os gastos da produção com aqueles orçados inicialmente e agilizar o processo de filmagem.

 

Thomas Ince se junta então a D.W Griffith, diretor dos primeiros longas-metragens americanos e pioneiro na ida dos estúdios para Hollywood  e Mack Sennett da Keystone Studios pra fundar a Triangle Motion Picture Company. O novo e poderoso estúdio populariza, o que ficou conhecido como Sistema de Estúdio (Studio System), onde empresas controlam a produção (e distribuição) cinematográfica, através de profissionais contratados de todas as áreas. Os roteiristas, figurinistas, diretores e atores trabalham em linha de produção das obras aprovadas e financiadas pelo estúdio. 

 

Os roteiros, chamados de Shooting Scripts ou Continuity Scripts ( o que hoje chamamos de Roteiro Técnico), já continham até as indicações de câmera e não raramente traziam a indicação Shoot as Written ( Filmar como Escrito), limitando os diretores a filmar exatamente da forma descrita no roteiro,  evitando gastos que já não tivessem sido previstos pelo estúdio.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Scorsese em “Uma Viagem Pessoal Pelo Cinema Americano”, chega a comparar as companhias cinematográficas do Sistema de Estúdio, a fábricas de carros, onde roteiristas, diretores e atores eram pouco mais que operários.

 

Em 1921, nasce o primeiro sindicato americano de roteiristas, The Screen Writers Guild (SWG) , após um anúncio de medidas de redução de gastos dos estúdios. Enquanto isso, o surgimento do cinema sonoro e a presença das falas, levou à incorporação de técnicas literárias para a elaboração de roteiros cinematográficos, fazendo crescer cada vez mais a importância dos roteiristas como profissionais dentro dos estúdios. Apesar do destaque os profissinais da escrita, muitas irregularidades existem. Salários irrisórios, cargas horárias elevadas e falta de créditos aos roteiristas nos filmes eram comuns. Duas grandes greves da indústria cinematográfica durante a década de 1930, aumentam as tensões entre os produtores de Hollywood e os sindicatos, particularmente com o Screen Writers Guild. Na década de 40, uma lista é publicada no The Hollywood Report, com nome de profissionais da industria hollywoodiana supostamente simpatizantes ao comunismo. A lista fica conhecida como The Hollywood Ten, sendo que dos dez profissionais listados inicialmente, pelo menos 9 atuavam como roteiristas.Em meio a paranóia comunista que embalava a política americana, a lista é investigada pelo governo e ampliada. Os profissionais são presos, deportados, perdem seus empregos e tem seus créditos retirados dos filmes. Dalton Trumbo, um dos investigados, só recebeu os créditos de roteiro pelo filme Roman Holiday de 1953,  em cerimônia realizada em 2011 pelo  Writers Guild of America, mais de sessenta anos após o ocorrido. 

Executivos de Hollywood visitam a Casa Branca em 1938. Da esquerda pra a direita:Barney Balaban (Paramount), George Schaefer (Paramount), Harry Cohn (Columbia), Sideny Kent (Twentieth Century-Fox), Nicholas Schenck (MGM), Nate Blumberg (Universal), Will Hays (MPPDA President), Albert Warner (Warner Bros.), Leo Spitz (RKO). 

 

 

A segunda é o surgimento da tv nos anos 50, trazendo uma queda brusca nas bilheterias do cinema no país, e levando a decadência da Época de Ouro do cinema americano.

 

A Terceira é o surgimento do movimento da Nouvelle Vague francesa e a influência da Teoria de Autor sobre  os cineastas americanos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Trecho do roteiro do filme Chef (2014) de Jon Favreau, no formato Master Scene, o padrão da indústria até os tempos atuais. Imagem do filme acima.

As mudanças acabam influenciando o formato e a visão sobre o roteiro do filme. O formato Continuity Script cai em desuso e o formato Master Scene, já presente no mercado, mas com pouca representatividade, vira o padrão para os roteiros de cinema. Nele fica clara, a distinção entre o trabalho do roteirista e do diretor. O roteiro agora contêm apenas descrições da cena, ação do personagem, assim como o diálogo, não há mais ângulos de câmera ou enquadramentos definidos. Assim, a padronização no mercado do formato Master Scene, parece como um ponto de decadência para os roteiristas, mas na realidade, liberta o roteirista da preocupação com a técnica cinematográfica, enquanto torna a história o seu ponto fundamental. Permite um estilo mais literário e narrativo, além de entender o diretor com um elemento que agregue sua visão artística ao projeto.

 

A Nouvelle Vague Francesa influencia cineasta de todo o mundo, propondo uma produção onde as obras tenham valor autoral, uma oposição ao Sistema de Estúdios.

Três colapsos ocorridos entre as décadas de 40 e 60, mudam completamente a indústria cinematográfica e a forma como eram compreendidos os roteiros dentro da produção. A primeira é a decisão  da Suprema Corte Americana, em 1948, no caso United States v. Paramount Pictures. O Sistema de Estúdios é compreendido como trust e precisa ser desfeito. Os grandes estúdios, conhecidos como Majors, são proibidos de operar em todas as etapas de produção e distribuição das obras, criando monopólios, e optam por apenas financiar e distribuir os filmes, o que é mais lucrativo. Fica a cargo dos Produtores Executivos, apresentarem projetos aos estúdios e produzi-los. Isto tira os roteiristas do Central Office dos Estúdios e os coloca no mercado como freelancers e parceiros das produções, popularizando também os spec scripts, isto é, os roteiros produzidos para especulação no mercado, sem uma encomenda dos estúdios.

 

 

BIBLIOGRAFIA

Balázs, Béla. Theory of the Film: Character and Growth of a New Art

Boon, Kevin Alexander Script Culture and the American Screenplay

Hamilton, Ian. Writers in Hollywood, 1915-1951

Hollywood Blacklist. Visto em: http://en.wikipedia.org/wiki/Hollywood_blacklisthttp://en.wikipedia.org/wiki/Hollywood_blacklist#The_Hollywood_Ten

It's a wonderful Life. Oscars.org Visto em: http://www.oscars.org/collection-highlights/all/its-wonderful-life

McGilligan , Patrick. Backstory: Interviews with Screenwriters of Hollywood's Golden Age

Norman, Marc. What Happens Next: A History of American Screenwriting

Raynauld, Isabelle. “Screenwriting” in The Encyclopedia of Early Cinema

Screenplayology. History of scripting and the screenplay. Visto em: http://www.screenplayology.com/content-sections/screenplay-style-use/1-1/

 

 

Em breve, faremos um artigo sobre a História no Roteiro no Brasil. Aguarde. 

 

bottom of page