A morte da maturidade na cultura americana

Texto original de A.O. Scott. Tradução e Introdução: Marcos Flávio Hinke. Acesse o texto original aqui. 

Introdução: De forma consciente ou não, toda obra representa um ponto de vista de seu criador sobre o mundo e a sociedade. Analisada a distância, um conjunto de obras pode revelar muito sobre o inconsciente coletivo. No texto abaixo, traduzido do artigo de A. O. Scott, premiado crítico americano, e publicado no New York Times Magazine, o autor analisa o homem adulto estadunidense moderno a partir de Mad Men, retrocedendo a literatura de Mark Twain e passando por comédias modernas para retratar a desevolução de nossa relação com a maturidade. O texto é em referência a cultura americana, mas podemos encontrar diversos pontos que se assemelham inteiramente com a nossa própria cultura e nossa percepção sobre o mundo. Então, fica a questão: também estamos passando pela morte da fase adulta na sociedade brasileira?  Texto notável para roteiristas que buscam inspiração para o fortalecimento de seus personagens e para um vislumbre  sobre a conexão direta entre narrativa e sociedade.

 

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Em algum momento este ano, durante a primeira metade da última temporada de "Mad Men", o passatempo popular de assistir a série (recapitulando episódios, tropeçando em spoilers, trocando notas sobre o design de produção impecável, fazer observações sobre detalhes históricos e debater grandes temas ) sutilmente se tranformou em um jogo de ler sinais sobre o falecimento quase que universalmente antecipado de seu protagonista. Talvez, a sombra da mortalidade já estivesse sobre Don Draper desde o inicio. Talvez o personagem e objetos caindo na sequência de abertura sugerem não só uma queda literal, mas também moral. Talvez as notáveis mortes nas temporadas anteriores, desde personagens ficticios como a Sra. Blankenship, Lane Price e Bert Cooper, até pessoas reais como Marilyn Monroe e Medgar Evers, fossem premonições da morte de Don. De qualquer forma, fãs e criticos ficaram de olho. Não era uma questão de “se”, mas de quando e como.

 

 

Personagens de TV estão entre as figuras alegóricas de nosso tempo, dando forma humana individual para as nossas ansiedades e aspirações coletivas.  Os significados de "Mad Men" não são muito misteriosos, e o título da segunda metade da temporada final, que vai ao ar em abril e maio nos EUA, será "O fim de uma era".

 

O mais óbvio sobre essa série meticulosa e revisionista, com uma visão moderna sobre o passado, e para muitas espectadores a mais prazerosa de se assistir, é que ela mostra uma velha ordem em colapso sob o peso da contradição interna e pressão externa.

 

Desde o início, "Mad Men" tem traçado a erosão e o caminhar gradual em direção a obsolescência de uma estrutura de poder construída e a serviço das regalias dos homens brancos.

 

A forma inconsequente em que Don, Pete, Roger e o restante se aproveitam de suas posições, e como eles facilmente abusam dela, motivou uma espécie de dualidade entre os espectadores de tv a cabo. “Esses cara eram horríveis, não eram? Mas eles também eram bem legais e charmosos, não?” Somos convidados a nos indignar e engolir nossa nostalgia, a aplaudir essa critica daquilo que adoramos exaltar.

 

O palpite geral que Mad Men irá terminar com a morte de seu protagonista é o que pode ser considerado sobredeterminado. Não surge apenas da lógica interna da narrativa, mas também é um produto de expectativas culturais. Algo profundo vem acontecendo na tv nas últimas décadas: um acerto de contas em sua fase final. Não é apenas uma era de homens loucos, mas também de homens tristes e acima de tudo, de homens maus. Don é ao mesmo tempo o herdeiro e  precursor de Tony Soprano, aquela representação do machão que lutou contra as ameaças ao seu status de macho alfa que herdou e batalhou tanto para manter. Walter White, o protagonista de "Breaking Bad", lutou desde o início com a sua própria emasculação e depois, de forma triunfante (e sociopática), reafirma seu domínio sobre essa farsa que o mundo lhe negou. A monstruosidade desses homens era inseparável de seus carismas, e as vezes era difícil dizer se deveríamos estar torcendo por eles ou nos contorcendo horrorizados.  Eramos convidados a participar de suas desilusões e ver através deles, a se maravilhar com a máscara da competência masculina mesmo quando presenciávamos seus deslizes e as coisas ficavam feias. Suas mortes foram (e serão) uma culminação e conclusão: Tony, Walter e Don são os últimos patriarcas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ao sugerir que o patriarquismo está morto, não estou afirmando que não exista mais sexismo, que os homens estão obsoletos e que o triunfo do feminismo está próximo. Posso ser um homem branco de meia idade, mas não sou um idiota. No mundo da política, trabalho e família, a misoginia é um fato perverso da vida. Mas no universo de pensamentos e palavras, há mais convicção e inteligência na crítica do privilégio masculino do que em sua defesa, que tende a ser histérica e indiferente quando não é obtusa e desagradável. A supremacia do homem não pode mais ser tomada como um reflexo da ordem natural das coisas.

 

Este desenrolar lento tem sido o trabalho de gerações. Para a maior parte, tem-se entendido como uma narrativa de progresso. Uma sociedade que era exclusiva e repressiva, agora é mais livre e aberta. Mas pode haver outras conseqüências menos felizes. Parece que ao acabar com a autoridade patriarcal, talvez involuntariamente, tenhamos matado todos os adultos.

 

Um pouco mais de uma semana após a conclusão da primeira metade da última temporada de Mad Men, a jornalista e critica Ruth Graham publicou uma polemica dissertação lamentando a popularidade entre adultos formados da literatura destinada a jovens adultos. Ao notar que cerca de um terço dos livros direcionados a jovens adultos foram comprados por leitores entre 30 a 44 anos (muitos deles presumivelmente sem filhos adolescentes), Graham insistiu que “esses adultos deveriam estar envergonhados por lerem literatura para crianças” Ao invés de se envergonharem, os leitores ficaram furiosos. O sentimento nas redes sociais poderia ser resumido com: “Não me diga o que fazer!”, como se Graham fosse uma mãe mandona e incompreensiva advertindo seus filhos a trocarem doces açucarados por alimentos nutritivos e saudáveis.

 

Não era uma discussão que ela estava em posição de ganhar, por mais persuasivos que fossem seus argumentos. Se opor aos prazeres juvenis dos consumidores de cultura endinheirados é assumir a posição de grosseira, esnobe ou rabugenta. Eu admito sentir uma pontada de desaprovação quando vejo um dos meus colegas com um volume de “Harry Potter” ou “Jogos Vorazes”. Eu não me sinto muito orgulhoso dessa reação. Como critica cultural, isso pertence a mesma categoria do desdém que não consigo suprimir quando vejo pessoas da minha idade (beirando os 50) andando de skate ou usando shorts e chinelos, ou reflexivamente franzir minhas sobrancelhas quando eu noto uma mulher no escritório usando presilhas de borboletas no cabelo.

 

Nos meus 15 anos trabalhando como critico de cinema,  observei como os estúdios comprometem seus vastos recursos financeiros e imaginativos para a cultivação de franquias (algumas delas baseadas em livros para jovens adultos) que demonstram essencialmente uma visão bem juvenil do mundo. Filmes baseados em histórias em quadrinhos, aventuras animadas para a familia, contos de heroísmo na adolescência ou comédias sobre juventude tardia, não só formam o centro comercial da Hollywood do século 21, eles são seu coração artistico.

 

Enquanto isso, a televisão deixou claro que estamos em uma fronteira. Não só programas como Mad Men e Família Soprano anunciaram o fim da autoridade masculina; nós também temos testemunhado a erosão da idade adulta tradicional, pelo menos em relação a como costumava ser, em séries policiais, sitcoms de apartamentos ou locais de trabalho e em novelas de horário nobre.

 

Estamos na era de “Girls”, “Broad City”, “Masters of sex” (uma pré história do fim do patriarquismo), e uma enxurrada de vídeos bobos, adoráveis, auto indulgente e detestáveis na web.

 

O que todos esses programas expõem, de uma forma ou de outra, é que ninguém mais sabe como ser adulto. A idade adulta como conhecemos tornou-se conceitualmente insustentável. Não é que o patriarcado antiquado no estilo Don Draper se despedaçou; na verdade ele pode nunca ter existido pra começo de conversa. O que levanta a pergunta: Devemos lamentar os mortos ou dançar sob seus túmulos?

 

Antes de responder isso, um inquérito deve ser levantado. Quem ou o que matou a vida adulta? A morte foi lenta ou repentina? Natural ou violenta? Apenas um culpado ou vários? Homicídio justificável ou assassinato a sangue frio?

 

Desde o início, a cultura americana foi resistente às reivindicações de autoridade paterna e aos imperativos da vida adulta.  Observando o cânone da literatura norte americana em seu magistral “Love and death in the american novels”, Leslie A. Fiedler  sugeriu, mais de meio século antes de Ruth Graham, que as grandes obras de ficção americanas são encontradas na sessão infantil das bibliotecas. Refletindo sobre o legado de Rip Van Winkle e Huckleberry Finn, ele ampliou essa observação em um diagnóstico da personalidade nacional: "O protagonista masculino típico da nossa ficção tem sido um homem em fuga, que atormentado corre para a floresta e para o mar, para o rio ou para o combate, qualquer lugar, para evitar 'civilização', que quer dizer o confronto de um homem e uma mulher que leva ao sexo, casamento e responsabilidade. Um dos fatores que determinam o tema e forma em nossos grandes livros é esta estratégia de evasão, este retiro à natureza e à infância que faz da nossa literatura (e vida!) tão encantadoramente e irritantemente infantil"

 

Fiedler viu a literatura americana como infantilizada. Ele lamentava a ausência de livros que abordassem o casamento ou relacionamentos, para ele os grandes temas maduros dos romances em sua forma mais essencial. Em vez disso, apesar de algumas exceções, a literatura americana é formada por aventuras de meninos e sentimentalismo feminino. Ou, dito de outra maneira, toda a ficção americana é ficção para jovens adultos.

 

A elevação do menino selvagem em herói permaneceu uma constante mesmo com a evolução e transformação da sociedade americana. Enquanto Fiedler estava escrevendo seu ensaio sobre a literatura, uma rebelião juvenil se firmou por todos os cantos da cultura americana. Os bad boys do Rock and roll e os rebeldes interpretador por James Dean e Marlon Brando provaram os argumentos de Fiedler enquanto ele escrevia sobre isso. Toda uma nova safra de semi anti-heróis estavam surgindo na literatura e no cinema.

 

Daquele tempo é uma viagem rápida para filmes como “Segurando as pontas”  e filmes de Judd Apatow. Os heróis dos anos 60 e 70 se irritaram contra as exigências do casamento, carreira e conformidade burocrática e jogaram o jogo da sedução e abandono, de adultério e divórcio através de grandes riscos existenciais, apenas para retornar uma geração mais tarde como protagonistas das bro comedies (comédia de “manos”). Nos desenrolamos de Lenny Bruce para Adam Sandler, de “Catch 22” para “Se beber, não case”, de “Paixão de primavera” para “O virgem de 40 anos”.

 

Mas as travessuras dos cômicos meninos-homens não eram meramente repetitivas. Nesse humor de homens imaturos, podemos detectar um vislumbre de algo novo, algo que acelerou a maturidade para sua crise terminal. Ao contrário dos anti-heróis de eras passadas, cujas rebeldias ainda aceitavam o fato da maturidade como premissa, os meninos-homens simplesmente se recusaram a crescer e fizeram isso com orgulho. Ao importarem atitudes adolescentes e pré- adolescentes para o mundo dos adultos (como por exemplo “Billy Madson – O herdeiro bobalhão”, “Ligeiramente grávidos”, “Quase irmãos” e “Com a bola toda”) entregaram um comportamento repentino de subversão, pelo menos a primeira vista. Por que eles deveriam ouvir patrões engomadinhos, ricos metidos, e outros símbolos estabelecidos de autoridade masculina?

 

No entanto, isso foi apenas metade da história. Como antes, o animo de rebeldia do homem-criança descontente não foi dirigido somente contra a autoridade masculina, mas também contra as mulheres. Nos antigos filmes engraçados de Adam Sandler, e em muitos outros lançados sob o selo de Judd Apatow, as mulheres estão confinadas a papéis estritamente arquetípicos.

 

Mamães boazinhas e esposas pacientes são idealizadas; é um alívio ir pra longe delas e reconfortante saber que elas vão estar lá para cuidar de você quando você voltar. Mamães malvadas e esposas controladoras são ridicularizadas e humilhadas. Mulheres sexualmente ativas precisam passar vergonha e serem domadas. Comprometimento verdadeiro só é encontrado com seus amigos, que curtem pornografia, Star Wars, maconha, vídeo games e todas as outras coisas que garotas e os pais simplesmente não entendem;

 

A comédia de manos tem sido uma fossa de homofobia nervosa e estereótipos raciais preguiçosos. Suas posturas de revolta tendem a exemplificar o hábito reacionário de fingir que aqueles com o maior poder social são realmente assediados e oprimidos.  Mas sua recusa á maturidade também convida para algumas reflexões críticas sobre o que vida adulta supostamente quer dizer. Nas antiga comédias, clássicos da era dos estúdios, aqueles pastelões sobre casamento com seu palavreado vertiginoso e indiretas maldosas, a maturidade era um fato.  Era imutável e penosa, mas também cheia de oportunidades. Você podia beber, fumar, flertar e gastar dinheiro. O truque era equilibrar a realização de seus desejos com a execução das suas obrigações.

 

O desejo do protagonista cômico moderno, entretanto, é se afundar na sua própria imaturidade, sondar suas profundezas e deleitar-se em seus prazeres. Ás vezes, como no recente “Vizinhos” com Seth Rogen, ele é capaz de fazer isso dentro do contexto de casamento. Em outros momentos mais obscuros ele permanecerá descompromissado e promiscuo, embora se sentindo um pouco mais culpado do que na época do auge Rothiniano (em referência ao autor Phillip Roth) com um senso maior da obrigação de ser decente. Deve-se notar que os predecessores dos homem-menino moderno tendiam a ser muito mais cruéis do que eles se permitem ser hoje.

 

Mas eles também, pelo menos por algum tempo, tinham algo por que lutar, um impulso moral ou política subjacente a suas posturas de revolta: Huck Finn expôs as mentiras desumanas da escravidão americana; Lenny Bruce lutou contra a censura. Quando “O Selvagem” interpretado por Marlon Brando foi questionado contra o que ele estava se rebelando, sua emocionante e niilista resposta foi: “O que você tem?” O equivalente moderno seria “...”

 

Talvez ninguém mais amadureça, mas todo mundo fica mais velho. O que acontece com os meninos rebeldes quando o sonho da infância eterna desaparece e as prerrogativas tradicionais de masculinidade não estão disponíveis? Existem duas opções: Eles se tornam irrelevantes ou eles se transformam em Louis CK. Cada macho americano branco com idade inferior a 50 é alguma versão do personagem que ele interpreta em "Louie", uma série quase inteiramente dedicada ao absurdo de ser um homem heterossexual rechonchudo de cara pálida, com filhos em uma era pós-patriarcal. Ou, se preferir, um perdedor.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O humor e pathos de “Louie” não vem apenas dos ocasionais sentimentos estranhos que ele tem sobre seus privilégios (que incluem andar pela cidade em relativa segurança e a expectativa de dormir com mulheres que são bem mais bonitas do que ele), mas também, mais profundamente, a partir de sua consciência de que os fundamentos conceituais e imaginativos desses privilégios ruíram sob ele. Ele é o centro das atenções, mas ele não está totalmente confortável com isso. Ele suspeita que possa haver outras histórias mais interessantes em torno dele, piadas mais engraçadas, crises de identidade mais dramáticas, e ele sabe que não pode pleiteá-las como sua própria.

Ele está acima de tudo ciente que existe uma força em sua vida, em seu mundo, que as vezes o atormenta e as vezes o da esperança, mesmo que realmente não seja sobre ele. Essa força se chama Feminismo.

 

 

Quem é a feminista auto-declarada com mais visibilidade no mundo atualmente? Se sua resposta for qualquer outra  que não seja Beyoncé, você pode estar se esforçando demais para ser do contra. Você a viu no VMA, com seu collant cheio de joias, com a palavra “FEMINISTA” em enormes letras maiúsculas iluminadas surgindo no palco atrás dela? Muitas coisas aconteceram naquele palco, mas ironia não foi uma delas. A palavra foi expressa, com uma mistura perfeitamente Beyoncesca de porte e provocação, para abranger todos os outros aspectos de sua identidade complexa e multiforme. Explica quem ela é como estrela pop, como símbolo sexual, como mãe de uma filha e uma parceira no mais proeminente casal Afro-Americano no poder, atualmente não residente na Casa Branca.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E enquanto Beyoncé pode ser a maior, a mais contraditória, a força mais multifacetada  na música popular do momento, ela não está sozinha. Taylor Swift recentemente descreveu como, sob a influência de sua amiga Lena Dunham, percebeu que “Estava tomando uma atitude feminista sem afirmar isso”, o que só confirmou o que qualquer um que escutou suas baladas sobre garotas espertas já sabiam.

 

E enquanto continuar havendo acusações (hand wriging)/franzindo as testas  sobre como as cantoras são sexualizadas (é só pensar em  artigos sobre Nicki Minaj, Katy Perry, Miley Cyrus, Iggy Azalea, Lady Gaga, Kesha e é claro, Madona, a mãe de todas elas), vai ser difícil argumentar com suas afirmações de poder e independência. As vozes dominantes da música POP moderna pertencem a mulheres. E as conversas que permeiam suas canções são frequentemente (ou não) com outras mulheres – amigas, fãs, rivais e influencias.

 

Conversas similares estão aparecendo em outras artes: na literatura, comédia stand up e até mesmo no cinema, que está bem atrás das outras formas de arte em dar espaço criativo para mulheres. Mas na televisão, o monumento dos patriarcas em extinção, pode ser onde o novo feminismo cultural está tomando sua postura mais decisiva. Se olharmos além dos dramas do homem sombrio, irritado ou do anti-herói que muitos críticos identificam como televisão de qualidade (“House of Cards,” “Game of Thrones,” “True Detective,” “Boardwalk Empire,” “The Newsroom”), veremos obras que subvertem os gêneros com mulheres e meninas em todos os tipos de lugares,do Brooklin a prisão até a casa Branca. As forças criativas por trás dessas séries são frequentemente mulheres que cultivaram os músculos e currículos para fazerem o que quiserem.

 

Muitos esquecem que a era dos homens dificeis da TV (de Tony, Don e Heisenberg) foi também a era das difíceis mães da TV em séries como “Weeds”, “United states of Tara”, “The Big C” e “Nurse Jackie”, que não atingiram o mesmo nível de êxtase por parte da critica por serem meio complicadas de serem classificadas. A maior parte delas eram no formato de meia hora ao invés do de uma hora, e eram bem sucedidas em transitar entre o pathos e absurdo. Eram sitcoms ou novelas? Essa ambigüidade, e o teimoso hábito de se recusar a levar séries cômicas e familiares tão a sério quanto sagas policiais ou de advogados, fizeram com que esses programas não recebessem a atenção que mereciam. Mas também se mostrou tremendamente fértil.

O formato de meia hora da TV a cabo, que permite tanto a concisão das sitcoms da tv aberta quanto a liberdade de falar palavrões e mostrar um pouco mais de pele, foi também o lar de “Sex and the City”, em retrospecto a série de TV mais influente do começo do século 21.

 

“Sex and the City” colocou a amizade feminina no centro da ação, tornando o tema a fonte principal de humor, sentimentos e complicações narrativas. “The Mary Tyler Moore Show” e seus spinoffs fizeram isso nos anos 1970. Mas Carrie e suas amigas puderam ser mais francas e livres que suas precursoras e isso fez de “Sex and the city” o progenitor direto de “Girls” e “Broad City”, que seguem uma geração de mulheres mais jovens perseguindo romance, dinheiro, solidariedade e diversão na cidade.

 

Essas séries são sem dúvida comédias, embora “Broad City” trabalhe de uma forma mais improvisada e anárquica do que “Girls”. Séries mais tímidas com certa semelhança incluem “The Mindy Project” e “New Girl”. O pseudo debate “mulheres podem ser engraçadas?” de alguns anos atrás (e já ridículo na época) foi resolvido de forma decisiva. Tina Fey, Amy Poehler, Amy Schumer, Aubrey Plaza, Sarah Silverman, Wanda Sykes: Caso encerrado. De qualquer forma, a verdadeira questão nunca foi a habilidade das mulheres em gerar risos, mas sim seu direito de serem tão honestas quanto os homens.

E também de serem tão rebeldes, irritantes e infantis. Por que só os garotos podem ter o direito de se revoltar? Não que as novas garotas sejam exatamente Thelma e Louise. Assim como os homens passaram pela fase da rebelião sincera para chegar ao estágio da recusa infantil, as mulheres também progrediram através da regressão. Afinal, a maturidade tradicional sempre foi mais amargo e cruel para elas.

 

Isso não quer dizer que os novos estilos de humor feminino são simplesmente reflexos daquilo que os homens tem feito. Ao contrário. “Broad City”, com a irreprimível amizade das personagens interpretadas por Ilana Glazer e Abbi Jacobson como centro, funciona simultaneamente como uma extensão e critica das bro comedies refinadas (e com isso na verdade quero dizer o contrário) por “Workaholics” ou a mini web sitcom “Jake and Amir”. A liberdade de Abbi e Ilana, assim como de Hannah, Marnie, Shoshanna e Jessa em “Girls”, uma liberdade para serem idiotas, egoístas e imaturas assim como aventureiras sexuais e emocionalmente irresponsáveis é menos que uma imitação da rebelião masculina do que uma rebelião contra os papéis pré estabelecidos. No mito do americano atordoado de Fiedler, onde pais eram tiranos ou bêbados, o papel disciplinador de ser um adulto caiu sobre as mulheres: garotas boazinhas como Becky Thatcher, que impediu Tom Sawyer de sair muito da linha; figuras maternas sufocantes  como a gentil, mas repressiva Viúva Douglas; paradigmas do julgamente sensível como Livy, esposa de Mark Twain, por quem ele disse que “deixaria de usar meias se ela as achasse imoral”.

 

Olhando para essas figuras e seus descendentes em tempos mais recentes - e para os patriarcas vulneráveis capengando nas telas esperando para morrer – percebemos que ser um americano adulto sempre foi ser uma figura simbólica na história de outra pessoa sobre a chegada da idade. E isso não é um bom jeito de se viver. É um tipo de morte moral em uma cultura que afirma auto invenção juvenil como seu maior valor. Agora podemos evitar esse destino. A elevação dos indiscutíveis gostos e desgostos de cada individuo sobre discursos críticos formais nos transformou todos em crianças. Nós temos nossos brinquedos, livros, filmes, vídeos games e musicas favoritas, e podemos recorrer a elas para conforto assim como para desafios ou iluminação.

Ficção para jovens adultos é o de menos. Agora é possível conceber a fase adulta como o estado de ser eternamente jovem. Infância, antes uma condição de autonomia limitada e prazer adiado (“espere até você ficar mais velho”) agora é uma zona de liberdade perpétua e deleite. Gente grande não sente compulsões em largar coisas infantis: Podemos viver com nossos pais, ir a acampamentos de férias, jogar queimada, colecionar bonecas e bonecos e assistir desenhos animados para deliciar nossos corações. Esses sintomas de imaturidade também serão sinais que somos mais livres, mais honestos e mais felizes que esses tolos tensos que largaram tais passatempos.

 

Eu realmente sinto a perda de algo aqui, mas ficar lamentando a imaturidade geral da cultura contemporânea seria tão obtuso quanto declarar como sendo a coisa mais legal do mundo. Uma crise de autoridade não é para os fracos de coração. Pode ser assustador e estranho e ambíguo. Mas também pode ser muito divertido. Os melhores e mais autênticos produtos culturais do nosso tempo conseguem ser todas essas coisas. Eles imaginam um mundo onde ninguém está no comando e ninguém necessariamente sabe o que está acontecendo, onde identidades estão em um fluxo infindável. Mães e pais agem como adolescentes; crianças são sábias além de suas idades. Garotas buscam seu lugar nos holofotes e garotos se enclausuram em jardins secretos. Temos tantas histórias, fotografias e argumentos que nem sabemos o que fazer com elas, e cada uma delas pesa em nossa atenção com uma reivindicação de exclusividade, uma exigência de ser reconhecida como especial. O mundo é nosso playground, sem um pai ou uma mãe em vista.

 

 

 

 

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